Conversas sobre CNV, poder, privilégio, “poder sobre” e mudança social

Tempo de leitura: 8 minutos

Tradução de um artigo originalmente escrito por Dian Killian e publicado em seu site Work Collaboratively, em 2017.

Cerca de dois anos atrás, a NVC Academy organizou um simpósio online sobre Removendo Nossas Cortinas: Vendo o Impacto do Poder e Privilégios. O simpósio ofereceu oportunidades para pessoas de origem europeia e pessoas de cor compartilharem suas experiências, bem como homens e mulheres, e para os demais escutarem com empatia em um aquário virtual.

Essa abordagem, de usar uma estrutura para falar e escutar em grupo, me pareceu ser uma maneira extraordinária de exercitar a Comunicação Não Violenta (CNV) em prol da mudança social com o uso poderoso da empatia. Pergunto-me como seria o mundo se pudéssemos ter mais simpósios desse tipo e círculos coletivos de luto, sobre tudo o que está acontecendo no mundo hoje, incluindo o movimento #Metoo, o meio ambiente e a extinção de espécies.

No contexto da cofacilitação de um dos aquários e simpósios, recebi um e-mail enviado a todos os instrutores do simpósio por alguém que desafiava nosso envolvimento. Essa pessoa escreveu que “não há correlação quando se fala sobre diferenças subjetivas, como privilégio, e a CNV …”, considerando este foco um desvio dos princípios da CNV e dos ensinamentos do seu criador, Marshall Rosenberg. Achei esse olhar para a CNV confusa e surpreendente. Dediquei cuidado e esforço ao responder à pessoa; abaixo está uma versão modificada da minha resposta. Para mim, a Comunicação Não Violenta é uma forma de mudança social, e abordar o tema poder é intrínseco a fim de criar essa mudança.

Para mim, toda conversa em que participamos envolve algum tipo de poderseja ele estrutural (baseado em leis, instituições, hierarquia ou status social—ou seja, “privilégio”) ou relacional (baseado em experiências/interações prévias naquela relação). O poder estrutural assume a forma de instituições e práticas (o que Foucault chamou de “Poder”) e de ideias, crenças, suposições, preconceitos e ideologia que apoiam ou justificam o Poder estrutural (o que Foucault chamou de “Conhecimento”). O primeiro não consegue funcionar sem o segundo. A ideologia (o pensamento, as crenças) justifica e possibilita o sistema e as estruturas. Um exemplo rápido: a escravidão ou Jim Crow1 poderia ter acontecido se não existisse racismo? Ou as mulheres poderiam ter o direito de voto negado (e enfrentar violência física e sexual até os dias de hoje) se não existissem sexismo e misoginia?

1- As leis de Jim Crow foram leis estaduais e locais que impunham a segregação racial no sul dos Estados Unidos, aplicadas entre 1877 e 1964 (nota da tradutora). 

Marshall investigou esse elo entre linguagem/pensamento (Conhecimento) e estrutura/ação (Poder) na entrevista que fiz com ele na revista The Sun. Ao trabalhar com a polícia em Israel, Marshall descobriu, conversando com eles, que todo ato de violência física ocorrido (uma arma foi sacada e/ou usada) tinha sido antecedido por uma interação verbal. Isso oferece um exemplo simples de que pensamentos levam à ação. E, esse micro exemplo é replicado em todos os níveis de nossa sociedade.

Se você refletir sobre isso, quando tratamos alguém “mal” é porque já temos um julgamento ou avaliação prévio sobre ele. Nossos pensamentos precedem nossas ações. Algo semelhante ocorre a nível social: crenças e preconceitos norteiam como as instituições são estruturadas e operam. E é triste dizer que a maioria delas, incluindo educação, saúde e nosso sistema de justiça, são baseadas no “poder sobre”, um conceito que tem embutido julgamentos sobre determinadas pessoas, rotulando-as como o “Outro”.

Em contraponto, o que acontece quando o poder é compartilhado? Quando nos conectamos com a humanidade plena da outra pessoa? Quando fazemos escolhas e agimos a partir de um lugar de plena conexão com nossas necessidades? Isso é o que a Comunicação Não Violenta, em última análise, propõe e evoca. E se nossas relações mudam a nível intrapessoal, elas também devem impactar as estruturas sociais, práticas e instituições.

A carta que escrevi:

Olá (fulano),

Antes de tudo, não me surpreende saber que esse tópico de “privilégio” é um gatilho para você, pois sei que é o caso para algumas pessoas. Mais especificamente, recentemente está rolando o que eu consideraria uma ampla discussão no grupo de e-mail de Instrutores Certificados pelo CNVC [Centro para a Comunicação Não Violenta] sobre esse tópico.

O que é interessante e se destaca, para mim, é como tantas pessoas também estão entusiasmadas e aliviadas de poder falar sobre esse assunto, e que a NVC Academy (em particular com o simpósio) abriu um diálogo sobre ele. Todas as vezes que enviei e-mails sobre os aquários da NVC Academy e o Simpósio (Mary me pediu para cofacilitar dois), recebi vários e-mails de gratidão e apreciação. Recebi mais respostas a esses e-mails do que a qualquer outro e-mail que enviei na vida (ao longo de mais de 15 anos). E não acho que seja simplesmente por causa de como as mensagens são escritas—embora eu goste de como a equipe da NVCA as escreveu. Eu acho que é por causa do assunto em si, e por abordar esse assunto. É especialmente sobre isso que ouvi gratidão.

Você é o primeiro a me contatar diretamente com preocupações e, reitero, sei que também há alguns instrutores certificados pelo CNVC que estão preocupados. No cerne das preocupações, ouço que “privilégio” seria um rótulo ou avaliação, portanto, desalinhado com a CNV e seus valores. Além disso, se for um “rótulo”, que ele atrapalharia a conexão e a compreensão (ao invés de facilitar isso). E, com relação a tudo isso, ouço a preocupação de que Marshall não teria aprovado ou não gostaria que esse termo fosse usado. Em última análise, existe um desejo de proteger a integridade e prática da CNV, e seu crescimento e impacto continuado no mundo. Também acho que algumas pessoas simplesmente querem clareza: quando você fala sobre privilégio, do que está falando exatamente? (em jargão de CNV: quais são as observações?)

Eu quero compartilhar minhas reflexões sobre essas preocupações.

Pessoalmente, ouvi Marshall falar repetidamente sobre sua visão e desejo de a CNV ser uma forma de mudança social (por exemplo, veja as duas entrevistas que conduzi com ele para o The Cleveland Free Times e a revista The Sun). Ele também referenciava repetidamente livros como The Powers that Be, de Walter Wink e O Cálice e a Espada, de Riane Eisler, ambos os quais dizem respeito ao poder na sociedade humana, como mudou ao longo de milhares de anos e como (no caso do livro de Wink) a desobediência civil é um desafio não violento ao poder e aos seus “hábitos” e estruturas.

Para Marshall, acredito que a pergunta convincente era: Como dar importância às necessidades de todas as pessoas e seres e tratá-las com cuidado? Como parte disso (conforme ilustrado nos livros citados acima), ele questionou e até desafiou as estruturas hierárquicas, o “poder sobre” e as normas e expectativas sociais onde residia o poder (um exemplo disso é que ele – com seu senso de humor típico – costumava referir-se a corporações como “gangues”). “Poder sobre” é um “rótulo” ou termo que Marshall usou repetidamente. Eu considero que esse termo refere a “privilégio”: padrões de “poder sobre” em um nível social em como nos relacionamos uns com os outros e com a vida.

O fato de ele ter decidido chamar a prática que desenvolveu de “Comunicação Não Violenta” e ver a CNV como uma extensão direta dos princípios de Gandhi, é o melhor exemplo de seus pontos de vista e intenções. Acho que não preciso lembrar ninguém que o foco de Gandhi era a desobediência civil, uma forma radical de praticar a compaixão para desafiar o poder e o “poder sobre”. Marshall enxergava a CNV como uma extensão desses princípios. De fato, para Rosenberg, a CNV é seu “experimento” de ação direta todos os dias, em cada conversa e interação.

Minha sensação é que há dor, pelo menos nos EUA, em torno do acesso ao poder (ou seja, a recursos e oportunidades), incluindo segurança física, saúde, habitação, etc., e como lidar e curar de forma mais eficaz esses desequilíbrios. A nível internacional, eu me pergunto: o impacto do colonialismo no mundo tem sido totalmente denominado ou abordado, e como? E quantas nações estão, ainda hoje (décadas depois), se recuperando/reconstruindo do impacto? Como a reconciliação, a cura, as reparações e a assunção da responsabilidade tem sido realizadas?

Costumávamos falar de “nações do terceiro mundo”, então passou a ser considerado mais respeitoso dizer “nações em desenvolvimento”. Na minha opinião, o termo mais preciso é “nações anteriormente colonizadas”. Colonialismo, escravidão e racismo (todos interligados na minha opinião) representam um sistema (o que Foucault chamou de “poder”—como manifestado em instituições, práticas e estruturas) que mostram um legado contínuo de um grupo (com base em algum significante, como “raça”, “gênero”, “classe”, “orientação sexual”, “religião”, etc.) com maior valor, direitos ou poder. Quando o poder se torna “codificado”—mantido por certos grupos e reforçado e mantido por normas sociais, crenças, leis e instituições, isso é o que eu consideraria “privilégio”. Cada vez mais, vejo esse privilégio não apenas na maneira como tratamos uns aos outros; também se reflete em nossa relação como seres humanos com o meio ambiente e outras espécies.

O que é poder? Da perspectiva da CNV, eu diria que é a capacidade de ver suas necessidades atendidas. Privilégio, então, refere às práticas sociais, crenças e normas que expressam que o poder está nas mãos—institucional, cultural e socialmente falando—de alguns grupos e que mantêm isso em pé. Conforme revelado no simpósio NVCA, essas camadas de poder podem ser matizadas e complexas. Como Roxy Manning apontou em sua sessão, ela está ciente de que tem algum privilégio (de classe) por ter um diploma superior (um Ph.D.) e também enfrenta discriminação (acesso mais difícil para ser vista e ver suas necessidades atendidas) por ser mulher e pessoa negra. O poder, claro, não é apenas estrutural ou institucional. Também temos poder em termos de recursos internos. E este é um “poder” que vejo que a CNV também procura ajudar a desenvolver.

Se oferecido em um espírito de diálogo, com diferentes membros de nossa comunidade tendo a oportunidade de compartilhar observações (o que eles estão vendo e ouvindo no mundo—e o que eles tem experimentado) e ouvir uns aos outros e ser ouvidos, com o foco claro na empatia (ao invés do debate), acredito que pode ser um momento poderoso e transformador para olhar para e conversar sobre privilégios, inclusive dentro da comunidade CNV. Estou inspirada, por exemplo, pelo processo de “verdade e reconciliação” pós-Apartheid que, efetivamente, criou uma estrutura de âmbito nacional para a justiça restaurativa na África do Sul.

Também estou inspirada pela crescente chamada por reparações nos EUA, com os estudantes assumindo a liderança, como na época fizeram no combate ao Apartheid nos EUA. Passei anos pesquisando e escrevendo sobre Estudos Culturais (meu Ph.D. é nessa área) e, por isso, está muito claro para mim que os processos que Marshall descreveu como eficazes entre pessoas para cura e reconciliação (incluindo traumas profundos) também têm uma aplicação mais ampla entre grupos de pessoas e traumas e desequilíbrios em uma escala social maior. A CNV oferece uma estrutura para compreender poder e privilégio, e como mudá-los e transformá-los de maneiras radicais—por meio da empatia, do amor e da compaixão.

Acredito que escolhas/atos específicos estão conectados/estendem-se a partir de crenças e padrões de crenças, consciente ou inconscientemente. Talvez uma “forma mais CNV” de se referir a isso é dizer: “Como o poder e o ‘poder sobre’ funcionam no mundo hoje e qual é o impacto para nós, seres humanos? Como nossas crenças—incluindo nossos julgamentos e preconceitos—apoiam a continuidade desse poder e de suas estruturas? E como nossos próprios medos atrapalham a exploração dessas questões?” Novamente, considero “poder” como a capacidade que temos de ver nossas necessidades atendidas. Como algumas pessoas talvez estejam escolhendo estratégias (e incluo a fala como estratégia) que podem ser tentativas trágicas de atender às suas necessidades? (Eu consideraria “trágicas” as ações e palavras do atual2 presidente dos EUA em relação a mulheres, no sentido dado à palavra por Marshall quando falava sobre “a violência ser uma expressão trágica de necessidades não atendidas”.)

2- Refere-se a Donald Trump, que foi presidente entre 2017 e 2020 (nota da tradutora).

Os instrutores também expressaram preocupação em diferentes momentos sobre o desejo e o legado de Marshall de mudança social. A CNV pode ter um impacto real em relação à mudança social? A empatia e pessoas que se ouvem podem criar mudanças sociais? Continuo a acreditar que sim. Minha pesquisa em estudos culturais (que examina o trauma nos níveis social e cultural) reforça essa crença para mim de que a empatia pode ser transformadora.

A partir desta perspectiva, conversar sobre poder, “poder sobre” e poder estrutural e codificado (ou seja, privilégio) oferece uma maneira de olhar, abordar e ouvir a dor uns dos outros em torno de nossas necessidades sendo atendidas e como escolhemos usar nossos recursos para avançar de uma maneira que esteja à serviço da vida para todos. Muitas vezes mencionei que o racismo afeta profundamente pessoas de cor e que todos nós somos impactados pela supremacia branca. Da mesma forma, acredito que o sexismo e a misoginia impactam os homens também, e sua capacidade e liberdade de expressão plena como seres humanos na vida.

Isso é diferente de usar “privilégio” como um julgamento moral ou condenação. Também não acho que Marshall tenha usado o termo “poder sobre” dessa forma. Ele usou o “poder sobre” como uma forma de aumentar a consciência sobre os modos específicos que nós, como espécie, passamos a nos comportar, de maneiras que ele não considerava “estar à serviço da vida” (outro rótulo que ele gostava de usar!). Ele costumava perguntar: “Como podemos tornar a vida mais maravilhosa?” (e “maravilhosa” também é uma avaliação!). A pergunta mais convincente e implícita em tudo isso (para mim) é: Como estou usando meu poder—e assumindo a responsabilidade por ele? Como posso usar meu poder—qualquer poder que eu tenha (interno, estrutura, relacional)—para uma vida melhor?

Compartilho esses pensamentos com você pelo desejo de nos ver continuar evoluindo como espécie e para que toda a vida continue a prosperar em nosso planeta. Para mim, essa evolução da consciência está intrinsecamente ligada à nossa capacidade de abordar os tipos de questões que levanto aqui, mesmo quando dolorosas e assustadoras, desconfortáveis e acionadoras de gatilhos. Afinal, é quando estamos totalmente sob a luz que vemos nossas sombras. E como encaramos nossas sombras determinará nosso futuro. Acredito que olhar para o poder e para o poder institucional é uma forma de lançar luz.


Tradução livre e com autorização da autora do artigo “Conversations About Power, Privilege, and Social Change”, escrito por Dian Killian e publicado orginalmente em inglês aqui

Traduzido por Laura Claessens. Ao copiar fragmentos do texto, cite a fonte.

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Dian Killian (tradução por Laura Claessens)

Dian Killian (tradução por Laura Claessens)

Dian Killian, Ph.D. é consultora, coach e autora. Ela é apaixonada por comunicação efetiva, colaboração e liderança. É treinadora certificada pelo Center for Nonviolent Communication [Centro para a Comunicação Não Violenta] e fundadora da Work Collaboratively. Compartilha a Comunicação Colaborativa (assim ela se refere à Comunicação Não Violenta) com organizações, grupos e indivíduos nos EUA, na Europa e na Ásia.
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