Confissões de uma mãe imperfeita

Photo by Ketut Subiyanto from Pexels
Tempo de leitura: 4 minutos

Traduzimos este texto em dedicação a todas as mães e futuras mães. Artigo originalmente escrito por Heather Plett e publicado em seu blog.

Desliguei o rádio esta manhã, a caminho de casa depois de levar minha filha para o trabalho. Ele estava me deixando com um pouco de raiva e eu não queria ficar de mau humor.

Chegando perto do Dia das Mães, a estação de rádio estava realizando um sorteio para o qual as pessoas podiam telefonar e indicar uma mãe para o prêmio. As pessoas que ligavam, principalmente nomeando suas mães ou esposas, diziam coisas como: “ela sacrifica TUDO pelos filhos” ou “ela está SEMPRE disponível” ou “ela é uma mãe para TODO O BAIRRO” ou “ela é a pessoa MAIS FORTE e GENEROSA que conheço”.

Quando cheguei em casa, disse a uma de minhas outras filhas: “Quero que você ligue, liste todas as minhas imperfeições e alguns dos meus fracassos e, em seguida, diga ‘nossa mãe parou de ser uma mártir para todos na família, e apreciamos isso porque está nos ensinando que não temos que fazer desse jeito quando/se nós mesmas nos tornarmos mães.’” E ela disse: “É, eu poderia contá-los sobre as vezes quando você voou para o outro lado do mundo por três semanas e nos deixou em casa.” (Ela está certa – Eu fiz isso. Várias vezes.)

Podemos por favor parar com essa glorificação e objetificação da maternidade? Podemos parar de colocar padrões e expectativas irrealistas nas mães para que elas apenas pensem que são “boas o suficiente” quando desistiram de tudo por suas famílias, mantiveram a casa arrumada, reprimiram todas as suas emoções e se voluntariaram para todos os eventos da escola?

E enquanto estamos nisso… podemos construir mais apoios para as mães em nossas comunidades, para que se sintam menos sozinhas e possam parar de se pressionar para serem super-heroínas solitárias?

Sou uma mãe imperfeita que não usa capa. Muitas vezes há poeira acumulada nos cantos e dei alimentos processados demais para minhas filhas. Quase nunca me voluntariei para as coisas da escola e sou notoriamente ruim em bater papo com outras mães no campo de esportes. Às vezes, coloco meu trabalho à frente das minhas filhas e cometi vários erros quando pensei que estava fazendo o que era melhor para elas. Às vezes, deixo meu antigo trauma e meu condicionamento social atrapalharem meu respeito pela dignidade e autonomia delas. Fico com raiva às vezes e até um pouco vingativa em certas ocasiões. Sou esquecida, distraída, egoísta e às vezes insensível.

Não quero que minhas filhas digam o contrário, porque não seria verdade. Eu não quero que elas usem óculos cor de rosa sobre o quão perfeita eu tenho sido, porque então, se um dia se tornarem mães, se julgarão de acordo com uma ilusão e os mesmos padrões impossíveis. Eu quero que elas tenham permissão para ser mães imperfeitas também.

Eu acredito no anti-perfeccionismo da maternidade. Acredito em fazer o melhor que podemos com o que temos. Acredito em mostrar nossas falhas e honrar nossos esforços. Acredito em “bom o suficiente” e “estou cansada demais para fazer melhor”. Acredito em dizer “sinto muito” e tentar novamente. Acredito em nos dar permissão para dizer “não”. Acredito em pedir ajuda. Acredito em limites saudáveis. Acredito em tornar a maternidade mais realista e administrável apoiando-a com cuidados comunitários. Acredito que os pais (e outros cuidadores) devam ser apoiados no desenvolvimento de uma maior capacidade para trabalho emocional, a fim de aliviar parte da carga das mães. Acredito que devemos rejeitar o martírio como uma construção da maternidade. Acredito que devemos celebrar a imperfeição e honrar nossas limitações. Acredito em perdão e graça e amor e autocuidado.

Também acredito que há razões pelas quais essa glorificação e objetificação da maternidade se tornaram tão arraigadas em nossas culturas. O patriarcado criou um ambiente em que a.) as mulheres (e, por extensão, “o trabalho das mulheres”) são subvalorizadas, e b.) temos que atuar e competir para provar nosso mérito.

As mães que lutam para provar seu valor dentro de um sistema são mulheres exaustas, oprimidas e mais facilmente dominadas, envergonhadas e controladas.

“Historicamente, as culturas patriarcais não apenas trataram a maternidade como um mandato para as mulheres, mas também a tornaram opressora, sujeitando as mães a padrões irracionais, tais como exigir que:

  • renunciem a suas ambições pessoais, em prol de cuidar de suas famílias;
  • se esgotem para sustentar suas famílias e criar os filhos;
  • sejam as principais zeladoras do lar;
  • sirvam constantemente aos outros e às necessidades dos outros, sem atender às suas próprias;
  • lidem com tudo com facilidade 100 por cento do tempo; 
  • tenham filhos bem comportados e mantenham um alto padrão de beleza, desejo sexual, uma carreira de sucesso e um casamento sólido.

As mensagens não ditas da nossa sociedade às mães incluem:

  • ‘Se a maternidade está difícil, então é sua própria culpa.’
  • ‘Que vergonha se você não é uma super-humana.’
  • ‘Existem ‘mães naturais’ para as quais a maternidade é fácil. Se você não é uma dessas, há algo profundamente errado com você.’”

Do livro Discovering the Inner Mother: A Guide to Healing the Mother Wound and Claiming Your Personal Power, por Bethany Webster.

Não vai ser fácil interromper esta narrativa da Mãe Perfeita, visto que é um dos pilares que sustentam o patriarcado, mas se queremos nos libertar de sistemas opressores, temos que continuar a desbastar os velhos tropos até que aliviem sua garra. Isso começa, creio eu, contando a verdade, curando as feridas e libertando nossos filhos da bagagem que herdamos.

É por isso que estou tendo conversas diferentes com minhas filhas. Estamos lutando, juntas, com os erros que cometi no passado que podem ser rastreados até a narrativa falha que herdei sobre o que significa ser uma Boa Mãe. Estamos desembrulhando quais partes de nossa bagagem familiar são sistêmicas e como podemos interromper esses padrões em nós mesmas. E estamos lutando para descobrir como deixar para trás o perfeccionismo e aceitar o “bom o suficiente”, mesmo enquanto continuamos a sentir a pressão de forças externas. E estou ajudando-as a se permitirem ser tipos de mães diferentes (ou a não serem mães se assim desejam) do que eu ou suas avós.

Mais do que tudo, quero modelar mais autocompaixão e menos perfeccionismo para minhas filhas.

O perfeccionismo está profundamente enraizado em nossos medos de sermos consideradas indignas, e a maternidade é ainda mais difícil quando você está sempre lutando para provar seu próprio valor. Infelizmente, o jogo está armado contra nós e estamos lutando uma batalha perdida porque a Mãe Perfeita não existe. É uma ilusão. Continuamos nos sentindo pressionados a nos medir em relação aos padrões impossíveis da Mãe Perfeita que é idealizada no Dia das Mães, mas não é nada além de uma miragem.

Desempenhar-nos ao extremo não aumentará nosso valor. Temos que encontrar isso em nós mesmas e temos que apoiar as outras a descobrirem isso em si mesmas também.

Nós só desmantelaremos o patriarcado se criarmos modelos alternativos de comunidade onde não tenhamos que jogar pelas regras do patriarcado e possamos encontrar amor e aceitação sem ter que lutar incessantemente por isso. Eu estou começando em minha casa, com minhas filhas.

Tradução livre do artigo “Confessions of an Imperfect Mother”, escrito por Heather Plett e publicado orginalmente em inglês aqui

Heather especializa na arte de “sustentar espaço” e passa boa parte do tempo pensando, escrevendo e ensinando sobre o que isso significa. Autora do livro The Art of Holding Space: A Practice of Love, Liberation, and Leadership. Cofundadora do Centre for Holding Space

Traduzido por Laura Claessens. Ao copiar fragmentos do texto, cite a fonte.

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Laura Claessens

Laura Claessens

Cofundadora da Colibri. Motivada pelo profundo desejo de cultivar relações mais saudáveis consigo mesma, com outros e com a Terra que lhe sustenta. Fascina-se pela linguagem e o uso consciente das palavras na (des)construção de significados e narrativas. Numa constante aprendizagem de acolher e integrar o “diferente”.
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