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Permita-se não dar conta

– Tempo de leitura: 3 minutos

Tenho visto muita gente se cobrando de fazer um pouco mais, ou se sentindo inadequadas por não parecerem cuidar o suficiente, ou não serem tão boas quanto outras pessoas que vê ao redor demonstram ser. Nesses tempos de pandemia então, parece ter aumentado ainda mais esse senso de inadequação, bem como a cobrança por ação. Afinal, se tem tanta gente se adaptando e fazendo até mais, por que eu também não estou dando mais de mim?

Tem horas que essa ânsia por mudança, melhoria, transformação, que é super saudável e necessária para continuarmos crescendo enquanto indivíduos, revela seu lado sombra e se torna opressora. Ela deixa de ser um impulso e convite e se transforma num peso que paralisa e nos leva pra baixo.

Nesses momentos, cada vez mais tenho percebido que é fundamental para e respirar fundo. Bem fundo. E então, nos permitirmos sentir nossas impotências e limitações. Viver o luto dessas impotências.

Bem sei que é duro, e difícil, se permitir estar nesse lugar. E que a tendência é negar esse momento e colocar sobre si um pouco mais de pressão e inadequação, com a melhor das intenções, dizendo: “que isso, sai daí, você consegue. não pode ficar desse jeito não”. Afinal, permitir-se estar num lugar de impotência pode parecer que estamos jogando a toalha. Desistindo. Entregando a batalha.

Mas, cuidado. Onde está escrito que viver o luto de não conseguir fazer mais, significa que não podemos continuar caminhando e crescendo, sendo melhores amanhã? Onde está escrito que viver esse luto significa que nunca mais sairemos dele?

Ah! Já sei. Talvez algumas crenças que estão tão incutidas nem nós, que sequer percebemos seu impacto em nosso bem-estar. Crenças essas que se manifestam através de conhecidas frases como “Você precisa ser forte”, “O mundo não tem lugar para os fracos”, “Treine enquanto eles dormem, estude enquanto eles se divertem, persista enquanto eles descansam, e então, viva o que eles sonham”, dentre muitas outras.

Você se pauta por alguma dessas que citei? Ou alguma outra que sussurra (ou grita) em seus ouvidos?

Veja que viver o luto da impotência e dificuldade diante da vida tal qual se apresenta é, tão somente, reconhecer nossa humanidade. Nossa necessidade de pausa, descanso. Desconectar do caos e adentrar a um pequeno espaço de calmaria. Respirar. Ser cuidado.

Depois de uma pausa, reconhecendo nossa humanidade, a gente volta à lida com a vida. Inteiros com quem somos. E, quem sabe, o reconhecimento de nossas limitações momentâneas nos traz algum aprendizado para, com mais sabedoria, lidar com os desafios da vida.

Aliás, extrair a última gota de suor e sangue tem sido um discurso impregnado numa lógica mecanicista de ver o mundo, onde todas e todos são recursos a serviço de algo ou alguém. Onde movimento e ação são valorizados, e pausa e descanso são perda de tempo.

Nascemos nesse momento de mundo onde a lógica mecanicista é super presente. Precisamos honrar o tanto de coisa bacana que tivemos acesso a partir dessa visão de mundo. Mas não precisamos ser tomados por ela, tampouco assumir que ela precisa perpetuar para todo sempre.

É tempo de mudarmos. E, para isso, precisamos lembrar que não precisamos dar cota de tudo. Que temos limites. Senão, sem percebermos, entramos em colapso. E, nessa hora, esgotou-se a última gota.

Permita-se parar essa semana. Fazer nada. Ser improdutivo. Jogar conversa fora. Conectar-se com algo que gostava na infância. Fazer algo que te dê prazer, sem culpa.

– Ah Sérgio, e o que isso tudo tem a ver com mundo do trabalho e as empresas?

Imagina se cada indivíduo ali dentro permite-se perceber seus próprios limites, e falar sobre eles. Imagina se na cultura organizacional de uma empresa melhoria e acolhimento dos limites, caminham lado a lado?

Suspeito que, nessa história toda, além das pessoas, até a Terra teria um respiro.

Texto de Sérgio Luciano, da Colibri, para sua coluna no UOL Ecoa.

Sergio Luciano
Um mineiro que gosta de conversar, aprender com o cotidiano e escrever. Investiga psicologia junguiana, comunicação não violenta, poder, privilégio, democracia profunda, dentre outros temas, para tentar entender um pouco mais esse negócio de relacionar-se com o diferente.
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