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Empresas, é hora de mudar!

Quem paga a conta?

– Tempo de leitura: 3 minutos

Eu e minha companheira temos uma empresa que atua com facilitação de cursos voltados para empatia e comunicação. Um desejo de explorar como cultivar relações mais autênticas a partir de uma mudança na forma como pensamos e nos comunicamos. Hoje, buscamos organizar e divulgar nossos cursos cultivando uma relação de confiança, empatia e transparência com quem chega até nós.

Como essa busca começou

Em 2018 surgiu uma inquietação quanto à forma como precificávamos os cursos que oferecemos.

Imagine que tínhamos a expectativa de receber no total 8 mil reais por curso para cobrir custos (transporte, hospedagem, locação de espaço, alimentação), nossa remuneração e uma margem de lucro para a empresa, sendo que o público máximo esperado era de 20 pessoas.

Para garantir nossa sustentabilidade, dimensionávamos um investimento por participante no valor de 615 reais. Isso significa que se tivéssemos 13 participantes, atingiríamos os 8 mil reais. E se chegássemos em 20 participantes, o valor pago por eles (um total de 4300 reais) seria lucro adicional para nós.

Percebemos que essa prática de precificação refletia um custo derivado de nossa insegurança em relação ao retorno financeira final, pois nunca sabíamos se teríamos turma cheia para nossos cursos. Como resultado esse custo era repassado a nosso cliente final, como bem aprendi durante meus mais de 10 anos no mundo corporativo e durante meu percurso acadêmico nas áreas de administração e logística.

Tudo começa pela conexão

Com a liberdade de experimentar e fazer novas escolhas, visto que temos nosso próprio negócio, decidimos experimentar nos relacionar de outra forma com nossos clientes. E, desde então, temos aprendido a cada interação e com cada curso organizado.

Recebemos semanalmente mensagens de pessoas ao redor do Brasil interessadas em fazer um curso conosco. Então, a primeira mudança foi começar primeiro por escutar estas pessoas, compreender melhor seus interesses e começar uma conexão. Então, buscar entre 5 e 10 pessoas de uma mesma cidade interessadas em levar um curso nosso até lá.

O desafio da transparência

A segunda mudança foi a decisão por falar abertamente sobre nossas expectativas financeiras e custos envolvidos para realização de nossos cursos. E, a partir daí, buscar com as pessoas interessadas alternativas para as necessidades de organização.

Definimos valores fixos para nossa remuneração e para o lucro e manutenção da empresa. Também decidimos que demais recursos necessários para realização do curso poderiam ser obtidos de forma alternativa à troca financeira.

Para o espaço físico, começamos a buscar localmente instituições que topariam permutar o uso de seu espaço físico em troca de 1 ou 2 vagas para os cursos. Para a hospedagem, começamos a buscar pessoas locais que topariam nos hospedar durante os dias do curso. E assim por diante.

Confiança e cuidado mútuo

Uma vez definido o valor final para custear o curso, que se reduzia em alguns momentos em até 40%, decidimos que só faria sentido realizar a atividade se houvéssemos uma lotação máxima da turma. Assim, o valor final poderia ser rateado entre todos os participantes, a fim de tornar o curso mais acessível financeiramente.

Então, esse grupo inicial de 5 a 10 pessoas, passaria a nos apoiar convidando outras pessoas. Se cada uma e cada um chamassem mais um, logo já teríamos 20 pessoas participantes.

Reverberações dessa jornada

Esse mais de um ano de organização de cursos nesse formato tem sido desafiador.

Já tivemos cursos onde conseguimos permutar tudo e participantes arcaram apenas com os custos do nosso transporte, nossa remuneração e o lucro da empresa. Em outros, conseguimos apenas algumas permutas e, ainda assim, reduzir consideravelmente o investimento final.

Em algumas localidades realizamos o curso com menos participantes que o planejado e tivemos menos retorno que o esperado. Ciente disso, decidimos facilitar o curso mesmo assim, pelo propósito que acreditamos, de contribuir com a construção de uma sociedade mais empática e acolhedora.

Seguimos tendo novas experiências, sempre em busca de diversificar estratégias para ter uma lotação máxima da turma e manter um valor o mais acessível possível para quem participa e, ao mesmo tempo, continuar sendo financeiramente sustentável para a empresa.

Esse formato de organização tem sido também uma forma de transformar minha relação com o dinheiro. Compreender o que é necessário para cuidar de minhas necessidades e falar sobre isso. Sair da lógica de querer ganhar o máximo possível e encontrar o caminho da suficiência.

Não acredito que esse seja o melhor modelo de negócios do mundo, tampouco que serve para toda e qualquer empresa. Porém, perceber que eu tenho poder de escolha e que é possível encontrar outras possibilidades de existir enquanto empresa, é um alento para o coração.

Sergio Luciano
Um mineiro que gosta de conversar, aprender com o cotidiano e escrever. Investiga psicologia junguiana, comunicação não violenta, poder, privilégio, democracia profunda, dentre outros temas, para tentar entender um pouco mais esse negócio de relacionar-se com o diferente.
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