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Das arrogantes certezas à possibilidade de escuta

– Tempo de leitura: 4 minutos

Eu sou um iludido, gente. Não sei porque tem gente tonta que dá crédito ao que digo. Talvez, eu até saiba um pouco, na real…

Decidi, faz um tempo, acreditar na possibilidade de relações sociais que integram a imensa divergência (pequenas e grandes) que temos, vindas de maneiras de ver e viver o mundo que conflitam nas estratégias e preferências que temos.

Mas essa história começa antes. Bem antes.

Eu sempre tive o hábito de debater, discordar e questionar. Talvez, ela tenha surgido do fato de eu sempre ter gostado de ler e estudar diversos temas e aleatoriedades. Gosto esse que se enraíza em minha eterna curiosidade sobre tudo. Uma criança perguntadora incansável.

Já adulto, carreguei comigo que a melhor forma de conversar sobre qualquer assunto era demarcar meu ponto de vista e refutar. Afinal, se eu sei sobre alguma coisa, tenho o dever de ensinar os outros que eles estão errados. Detalhe: “saber sobre alguma coisa”, boa parte do tempo, era ter lido alguns parágrafos, quiçá um livro, e achar que virei doutor no assunto.

O que antes era uma genuína curiosidade de criança, com o tempo foi dando espaço a uma prepotente arrogância disfarçada de saber.

Ainda não me livrei dessa prepotência e arrogância, sabe? É um desafio constante. De vez em quando me pego num lugar um tanto autoritário e fechado à escuta, pronto para rebater com o pouco que sei, que penso ser o saber absoluto.

Felizmente, tem momentos que consigo me perceber nesse lugar e conscientemente adotar novos caminhos, fazer novas escolhas. Outros, alguém me dá uma puxada de orelha, ou critica duramente. Normalmente recebo isso como uma criança com raivinha que não gosta de ser contrariada, claro. Às vezes vou além e consigo absorver como um convite à consciência.

Uma vez eu escutei numa aula de filosofia algo sobre Sócrates. Uma frase manjada, que já repeti um zilhão de vezes sem saber do que ela realmente se tratava: “Só sei que nada sei”.

Aliás, a frase nem era bem assim, acho. Enfim. Foco no sentido real.

Hoje, entendo que isso significa tomar consciência dos limites de nosso conhecimento. É impossível saber tudo sobre tudo. Até aqui me é possível ir. Para além daqui, a ver.

Eu vejo muitas certezas na internet.

Hoje mesmo, antes de escrever, presenciei pelo menos umas 5 arenas onde sábios (talvez idiotas) se digladiavam em reivindicação da autoridade máxima sobre determinado tema comum. Tema esse revestido de complexidade e subjetividades, diga-se de passagem.

Receitas. Fórmulas. Verdades. Decretos. Sentenças.

Tudo, tudo, tudo, impassível. Imaculável. Puro. Sacrossanto. Indiscutível. Indialogável. Aos olhos daquele que ferrenhamente defende o seu lado.

Eu sou um tolo iludido que acredita que para além daquilo que já temos como certo, do debate sobre qual a melhor argumentação, também poderíamos nos escutar sobre como somos implicados nisso tudo.

Um papo meio merda, parece. Sentimental, talvez. Infrutífero, de certo (dirão).

– Poxa, diante desse tema que a gente diverge, eu defendo com unhas e dentes pois eu entendo ser uma ótima forma de sermos mais inclusivos com outras realidades.

– Quando eu escuto você trazer tal opinião eu me sinto inseguro de que funcionaria com tantas pessoas, tipo um país todo. Eu experimentei algo assim em pequenos grupos, e deu tão ruim.

– Eu discordo disso porque não me parece coerente com o que falou antes, bem como destoar dos estudos que tenho feito faz um tempo. Percebo que tenho outras formas de enxergar que, por agora, soam bem conflitantes. Ao mesmo tempo fico curioso para saber como essas ideias refletem o bem-estar que você gostaria de ver mais pra você, para o povo.

– Eu tô cansado de discordar, sabe. De debater pontos de vista. Gostaria de um milagre onde todos pudéssemos respirar e sermos cuidados. Ingenuidade boba, eu sei, mas o cansaço é grande. Olha eu aqui debatendo com você de novo.

– Eu falo do jeito que falo, pois tem uma esperança dentro de mim que grita tão alto, também num desespero dessa chama se apagar. Pois, sinceramente, eu não sei o que vai ser.

– Eu me sinto tão distante das decisões coletivas por nossos representantes, que fico ansioso e doido da vida querendo trazer outras alternativas pra mudar isso. Queria mais proximidade da vida real com aqueles que nos representam, sabe.

Minhas opiniões ferrenhas e achismos, minhas defesas apaixonadas de caminhos diversos, trazem consigo uma alma que busca dizer algo pro mundo. Pro outro. Pra mim.

Eu sou um tolo iludido que acredita que nem tudo é debate, ataque e defesa. Apesar de saber que também é necessário um debate.

Debate é polarização. Polarização é conflito. Conflito é tensão quando algo precisa ser feito pra seguirmos em frente, cuidando dos envolvidos. Cuidado com o conflito é renegociar acordos para cuidar dos envolvidos. Cuidado com o conflito é descobrirmos onde cada um pode melhorar para si, e também para a coletividade, para aqueles com quem nos esbarramos no viver.

Minha ilusão é esperança. Minha tolice é esperança.

Não quero que nos tornemos chatas pessoas que não brigam e não discutem, fofas e iluminadas na paz de Jah, que se abraçam e sorriem como uma grande família feliz. Viver é se esbarrar, acho. Colecionar dodóis. Arranhões. Cicatrizes. Não só isso, claro.

Sou um tolo iludido esperançoso na possibilidade de a escuta também ser parte da equação. E em meio às nossas divergências e bate bocas, espaço existir para breves (ou não tão breves) momentos de conexão.

Talvez você seja mesmo um tonto esperançoso que ainda me lê. Que me leu até aqui. Se o for, tamo junto nessa.

Iguais, felizmente, nunca seremos. E até meu último suspiro minha missão é provocar sobre como podemos existir juntos, em meio às nossas diferenças.

Respostas e certezas? Não tenho! Ainda bem.

Dizem que um ecossistema se sustenta e mantém, na diversidade que nele reside. Pois, em meio ao matagal de discordância, apenas trago sementes de escuta.

Talvez por eu não imaginar uma sociedade onde apenas tretar e discutir seja sinal de equilíbrio.

Sergio Luciano
Um mineiro que gosta de conversar, aprender com o cotidiano e escrever. Investiga psicologia junguiana, comunicação não violenta, poder, privilégio, democracia profunda, dentre outros temas, para tentar entender um pouco mais esse negócio de relacionar-se com o diferente.
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