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Quer dialogar com quem você considera inimigo? Parte 1: Comece se escutando!

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Inimigos! Todo mundo tem. Em diferentes intensidades. Não se engane achando que inimigos são apenas Batman e Coringa, Sonic e Robotnik. Meninas Super Poderosas e Macaco Louco. Mocinhos e bandidos dos seus filmes e séries favoritos.

Sabe aquela pessoa que pensa ligeiramente diferente e que, ao se expressar, você já torce o nariz? Olha a sementinha de inimigo aí. Ou aquela de quem você declaradamente tem bode, só de ouvir o nome. Essa, talvez seja o Lex Luthor que você tem pra chamar de seu.

Chamamos de inimigo, aqui, pessoas com quem polarizamos e divergimos, em maior ou menor medida, e que percebemos que comportamentos, falas, opiniões, descuidam de algo importante pra nós. Seja uma causa que nos é preciosa, seja afetando diretamente nosso viver.

Vivemos em sociedade. E precisamos aprender a dialogar com o inimigo. Claro, isso não significa que TEMOS QUE dialogar com essas pessoas o tempo inteiro. Podemos seguir brigando e tretando também. E tá tudo bem.

E uma das grandes questões que, com recorrência, chegam até os cursos que facilito e conversas que tenho é:

– Mas Sérgio, como eu vou escutar aquela pessoa que está fazendo algo que não concordo de jeito nenhum, e que tem atitudes e falas que descuidam profundamente daquilo que é importante pra mim?

Eu, com toda a leveza típica de Sérgio, sempre respondo:

– Mas você quer mesmo fazer isso? Você não precisa, e pode mandá-la para aquele lugar também. Sabe disso né?

Aí, vem aquele primeiro choque. Acompanhando normalmente de uma tela azul (vulgo, cara de paisagem, não tô entendendo). Normalmente, eu sigo com algo assim:

– Sim. Você não precisa tentar lidar com essa pessoa. Qualquer pessoa que diga que você “tem que” fazer isso, está meramente projetando expectativas dela sobre você. E como acredito na autonomia e liberdade de escolha, te faço uma pergunta: Do que você quer cuidar ao interagir com ela?

Agora, vou seguir com um diálogo que espelha a essência das trocas que tenho. Tá com tempo? Senta, respira, e continua. Senão, quem sabe deixar pra depois? Escolha aí!

P: Ah, eu não concordo de jeito nenhum com o que ela diz e gostaria que ela mudasse de ideia. Como assim vai pensar desse jeito, e falar estas coisas? É inaceitável!

Eu: Ah, entendi que você quer, de um jeito ou de outro, que ela pare de falar aquilo que está falando e mude o comportamento que tem, agindo de forma que fica menos ofensor pra você e para as causas que acredita, sim?

P: Claro! Não pode ser assim.

Eu: Olha, eu acho que se você está querendo impor para o outro um comportamento (ainda que eu entenda também que é legítimo), provavelmente entrarão numa polarização enorme e a tendência vai ser um esticar de cordas e cada um defendendo seu ponto de vista. E sairão mais certos de suas verdades e distantes um do outro.

P: Eu sei! Mas não dá! Essa pessoa está errada!

Eu: Entendo que você não tem espaço para acolher que a pessoa pode pensar e agir do jeito que está, sim?

P: Sim! É isso mesmo!

Eu: Então acredito que você já tenha sua resposta, pois se você não está disposta a interagir com o que vem, e apenas rebater e mostrar que ela está errada, como posso contribuir? Rebata uai. Consciente de que, provavelmente, vai ter atrito e acontecer o que falei antes.

P: Ah, mas eu queria poder dialogar, só que é difícil. Como vou concordar com o que ela faz? Impossível!

Eu: Bom, você está dizendo que escutar o que ela tem a dizer e buscar compreender de onde ela parte, significa concordar com tudo que ela diz.

P: Sim! E não é? Se eu escutá-la, ela vai achar que tô concordando e que está com a bola toda, e terá razão em pensar assim.

Eu: É. Se você tem essa visão aí… você também já tem sua própria resposta. Que raios você quer, dando corda pra uma pessoa dessas?

P: Mas posso escutar o que ela tem a dizer, mesmo sem concordar com ela? Hmmm… difícil. Como faço pra ela não achar que tá com a bola toda e me convenceu.

Eu: Diz isso pra ela uai!

P: Isso o que?

Eu: Tipo assim, mas usando suas palavras tá. Não me copia, pois você é você e tem seu jeitão.

Eu: “Olha fulano, eu tô aqui numa encruzilhada. Ao mesmo tempo que discordo muito de você, e sou bem reativo, você já sabe, em relação ao que você traz, eu quero também compreender melhor. Vou tentar abrir mão dos 1001 julgamentos que tão aqui presentes, e focar em escutar o que é importante pra você. Topa me contar?”

P: Aaaaaah! Tá de sacanagem que vou falar isso. O que ele vai pensar de mim?

Eu: E o que ele já pensa de você?

P: Bem, a gente já não se entende mesmo. Mas preciso dialogar com essa criatura. Pois, o que eu quero mesmo, com jeitinho, é convencer de que ele tá errado.

Eu: Lá vem você de novo querendo ter certezas sobre o outro né. Então, na verdade, tu só quer manipular a situação pra enfiar na cabeça do outro sua perspectiva?

P: Sim.

Eu: Bem, boa sorte! Entendo sua colocação, ao mesmo tempo que quero te dizer que tenho medo de ser uma disposição artificial de se conectar com o outro, que pode ter efeitos futuros.

P: Ah, você tá dizendo que tenho que abrir mão de convencê-lo de um jeitinho fofo, e quer que eu apenas escute sem expectativa de mudá-lo?

Eu: Não! Quase isso. Tô te convidando para, ao mesmo tempo, guardar contigo toda essa busca pelo que entendo respeito, cuidado, segurança…. e se abrir à possibilidade do que surgem entre vocês. Pois, se você ficar apegado ao convencimento, tudo que fugir disso tem o risco de você ser reativo e voltar para um padrão de imposição da sua voz.

P: Ah! Você quer o impossível de mim…

Eu: Impossível o que?

P: Oras, e se ele não estiver disposto a fazer diferente?

Eu: E agora, esta pessoas já está disposta a fazer diferente?

P: Bem, não!

Eu: Pois…

P: Então você está falando para eu me permitir confiar de forma genuína no que pode surgir da escuta do que é importante pro outro, abrir mão de expressar o que eu gostaria de expressar, e simplesmente escutar e não tentar chegar em lugar algum?

Eu: De certa forma, sim! Gostei que você falou sobre abrir mão de expressar o que gostaria, e focar no escutar e estar atenta ao outro.

P: Mas aí eu perco né. Quero poder falar também.

Eu: Oras, comigo você já está falando. Por que jogar toda sua indignação na mesa, e palavras que já sabe que o outro talvez não vá concordar? Peça apoio para soltar os cachorros aqui, e na hora foque na escuta.

P: Hmm… Então na verdade você tá dizendo que não preciso querer resolver tudo numa única conversa?

Eu: Aleluia, irmãos! Isso mesmo. A relação é uma construção. É necessário sabedoria. Construa sua relação com esse suposto inimigo, para além da divergência já sabida de ambos.

P: Porra, dá trabalho Sérgio.

Eu: E brigar igual doido e se frustrar, não dá trabalho também?

P: Pelo menos eu tô soltando toda a raiva que tenho né.

P: Tá já sei! Eu posso receber escuta pra digerir esta raiva e ficar inteiro diante do outro, com quem quero manter a conversa, né?

Eu: Olha só hein! Já está até lendo meus pensamentos. Agora, a hora que você quiser partir pra briga, você vai ouvir o chato do Sérgio na sua cabeça, dizendo o que você já sabe que vou dizer.

P: Tá tá tá! Entendi e posso tentar. Agora, como eu faço para conversar com o outro a partir desse lugar de escuta que você tanto encheu o saco e falou?

Eu: Bom… isso… são cenas para os próximos capítulos.

Eu: Ah, e lembre-se: faça escolhas conscientes. E se der vontade, parte pra briga mesmo. Quem sou eu pra dizer que você não pode.

Vai lá nos comentários e deixa sua opinião! Simbora conversar sobre esse tema, que bem sei que é bem cabeludo e dá pano pra manga.

De acordo com o interesse de vocês, escrevo o próximo capítulo dessa novela.

Disclêimer: algumas pessoas podem inferir do texto que ele não leva em consideração estruturas de opressão e que é simplista demais. Para estas, ressalto que tô bem ligado nessa questão de estruturas de poder e opressão, e privilégio, e meu foco aqui foi tratar algo fora desse âmbito, que também tem validade prática na vida cotidiana. Do contrário, eu precisaria de um TCC, pelo menos, para dar conta de explorar a complexidade disso.

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Sergio Luciano

Sergio Luciano

Sou um dos fundadores da Colibri. Intrigado pela complexidade das relações de poder e privilégio numa sociedade, tenho me aprofundado nesse tema pelo olhar Processwork, uma abordagem terapêutica derivada da psicologia junguiana voltada para mediação de conflitos, facilitação de grupos e autoconhecimento. Também investigo e compartilho sobre comunicação não-violenta e atendo organizações e pessoas físicas no Brasil e no exterior.
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