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O desafio de pregar para não convertidos

– Tempo de leitura: 6 minutos

Reconhecer-se como apoiador de alguma causa importante traz consigo a tarefa de conversar com pessoas que estão em distâncias diferentes da referida causa.

Exemplo prático: falar sobre ser antirracista e transformar uma estrutura onde pessoas negras são marginalizadas em diversos aspectos passa por conversar com pessoas que:

  • Já compraram essa causa e querem mais recursos para seguirem sendo aliadas, e até mesmo pedem feedback sobre suas falhas.
  • Sabem que o racismo existe, percebem que podem mudar de comportamentos, mas nem sempre concordam com algumas abordagens que veem.
  • Enxergam o racismo na sociedade, criticam e condenam atitude escancaradamente racistas, mas não se percebem em alguns comportamentos mais sutis. Ainda assim, são solícitas e dispostas a refletir sobre tais comportamentos.
  • Tem a mesma percepção do ponto anterior, mas não se dispõe a refletir sobre seus comportamentos. Aliás, até se incomodam com o fato de serem rotuladas como racistas.
  • Sabem que o racismo existe, mas acham que atualmente tem um politicamente correto muito chato e excesso de mi mi mi, e tem pavor de algumas atitudes que entende como extremas e/ou vitimistas.

Esses, são alguns dos diversos pontos de distância e conexão com a causa antirracista com o qual nos esbarramos. Podemos pegar outras questões sociais que nos são importantes e teremos perfis similares de engajamento e conexão com a causa.

Qual a treta nisso tudo?

Eu considero convertidas, mesmo, apenas as pessoas que citei no primeiro ponto: aquelas ativamente engajadas em escutar, compreender e até tomar duras, com caráter educativo.

Porém, nem sempre a comunicação que temos com os convertidos chegará de forma construtiva e propositiva para as demais pessoas. Pode ser que em nossa intenção de convidá-las para mais perto, a partir das estratégias que utilizamos, gere polarização e afastamento.

Com isso, tenho percebido a importância de adaptarmos nosso discurso, entendermos o quão doído queremos bater, ponderar o quão direto queremos ser, na hora de interagir com as pessoas à nossa volta.

Certamente isso vai depender do quanto de proximidade temos da pessoa, se nosso contato é pontual ou recorrente, e do quão dispostos estamos em não apenas expressar aquilo que achamos que a pessoa tem para aprender e mudar, mas também de escutá-la de forma genuína e sem recriminá-la.

– Mas Sérgio, fulano precisa entender que…

Eu sei. Fulano precisa entender, sim. Se ele é convertido, talvez ele vai super se conectar com nossa expressão mais incisiva e combativa. Alguns, até mesmo terão um deleite ao terem suas falhas apontadas.

Porém, se esse Fulaninho não é convertido, talvez seja importante mensurarmos a dosagem e forma de aplicação desse remédio antirracista, sabe? E de qualquer outra causa que queremos falar.

– Porra Sérgio, mas o bagulho é urgente! Que mané dose o que. É tudo pra ontem!

Sim. É tudo pra ontem. Eu não quero negar a urgência. Aliás, acho uma merda as mazelas pelas quais milhões passam, por uma estrutura social que privilegia poucos.

Confesso que, tem horas, a única alternativa que me parece possível é quebrar tudo e levar essa dor que já existe, para todos os meios possíveis da sociedade. Ao mesmo tempo, tenho medo de fazer isso. E medo de perder minha relativa tranquilidade. Tem horas que sequer sinto confiança que essa ação de fato contribuiria.

Diante das urgências, e dentro dos limites que tenho, carregando alguns lutos, sigo fazendo o que está ao meu alcance. Pregar para não convertidos.

Então, voltemos para a dosagem.

Anos estudando sobre psicologia e comunicação não violenta, e um pouco de filosofia, me levam a crer na importância de acompanhar o outro em seu processo, e inserir gotas de opinião minha no meio. O motivo? Cada pessoa tem a sua jornada, quer a gente queira, quer não. E todas estas jornadas se cruzam no que chamamos de viver em sociedade. Nada complexo né?

– Nossa Fulano. Pelo que diz, tu também acha importante desconstruir o racismo, ao mesmo tempo que se incomoda com ser rotulado como racista pelo fato de ter privilégios. É isso?

– Sim, poxa! Eu não sou culpado por ter nascido como sou. Não sou culpado por um dia ter havido escravidão. Acho horrível isso, não deveria ter acontecido, mas não me culpe por ela.

– Tá. Acho que entendi. Você reconhece que o fato de não ser negro contribui para que não sofra as mazelas do racismo. E reconhece o quão horrível foi a escravidão, mas gostaria de uma separação entre o que foi feito no passado, e sua responsabilidade no agora.

– Sim! Eu não sou culpado por tudo que acontece. Eu fico chateado também, poxa. E me sinto impotente, tá!? Você acha que não me importo?

– Na real, nem me passou pela cabeça que você não se importa. Aliás, te ouvindo agora, fico com a sensação de que você gostaria de ver reconhecida sua preocupação com uma mudança nas estruturas.

– Claro! Eu tenho amigos negros, por exemplo. Não são muitos, mas tenho. Até parece que eu seria racista e desrespeitaria meus amigos.

– Ah… que massa tu dizer que se preocupa em respeitar seus amigos uai. Entendo que você tem presente a intenção em contribuir para que sejam vistos e respeitados por ser quem são. E desrespeitá-los não é uma opção.

– Óbvio. Viu como não sou racista?

– Vi sim que você tem uma preocupação com eles. E, aliás, tenho uma curiosidade. Quando diz que não é racista, me traz mais clareza do que você entende como atitudes racistas? Assim consigo ter uma visão mais palpável da coisa, e até descobrir as convergências, e possíveis divergências, sobre a amplitude do que significa uma atitude que pode ser vista como racista.

E a conversa poderia seguir por muitos caminhos. Esse é só um exemplo.

Veja. Apesar de eu não ter expressado em momento algum, tenho presente comigo que talvez essa pessoa tenha comportamentos naturalizados que podem ser vistos como racistas. Tenho até vontade de problematizar alguns comportamentos, e mostrar para ele que sim, ele é racista e não percebe.

Entretanto, não me sinto seguro de que minha expressão chegaria de forma cuidadosa. Fico preocupado que, com os dois pés no peito, aumentaria a possibilidade de desconexão. Então, conscientemente, escolho dialogar num lugar de escuta do lado dele, batendo papo sobre o que lhe é importante.

Uma pessoa tem mais possibilidade de se abrir à escuta quando percebe que foi suficientemente escutada. Isso não é uma regra, mas tem feito sentido pra mim nas interações que tenho.

Focar a conexão e compreensão, para depois passar uma visão, tem sido de grande valia pra mim diante das interações que tenho. Às vezes, nem é numa primeira conversa que expresso minha opinião. Ou apenas depois de longos minutos de troca baseada na escuta do que vem do outro.

Gosto sempre de lembrar que a relação se constrói no tempo, e não num momento único e estático. Isso me permite escolher conscientemente a dosagem, e forma, que quero usar.

Às vezes eu tenho a possibilidade de uma breve interação com a pessoa, e nada mais. Ali, pondero como eu quero fazer parte da construção de seu imaginário sobre temas que me são importantes.

Em alguns momentos já escolhi, ao invés de apresentar meu ponto, acolher o que o outro pensa sobre o assunto. Ao final da breve interação, disse que eu até discordo e tenho outras perspectivas, mas naquela hora me fazia mais sentido compreender de onde ela parte.

Teve gente que disse que foi a primeira vez que foi escutada sem ser recriminada e que sentiu conexão comigo. Que valorizou isso. Eu, em resposta, lembrei que cada um tem seu processo, e que talvez para outros faça mais sentido polarizar. E que ele poderia escutar mais também, se quisesse. Saí com a esperança que, em outras trocas, talvez ela se abra para escutar.

Se ao polarizar quase que fatalmente entraríamos numa defesa de pontos de vista e discussão, preferi tentar ser um tijolinho de uma futura construção. Ainda que eu não a veja, e esta não seja dada como certa.

Isso que eu trouxe não é imperativo para você. Talvez, lhe faça mais sentido apontar mesmo, tentar convencer o outro como prioridade. Eu não sei onde as coisas lhe doem, então me acho indigno de lhe dizer o melhor caminho. Seria muita prepotência e arrogância. Ao fim, faça o que lhe faz sentido.

A única coisa que me cabe aqui é dizer que acho necessárias múltiplas abordagens para dar conta das questões coletivas que nos são importantes, sendo que cada pessoa assume seu papel e postura nesse cuidado.

Se para alguns a disputa direta e discussão parece ser a única opção, tenho a esperança que essa partilha convide à reflexão sobre diferentes formas de ação. Nem melhor nem pior, apenas diferente. No fundo, talvez, todas as diferentes formas de ação tentam dar conta de um melhor mundo para muito mais gente.

Aliás, tem horas que o melhor mesmo é ser combativo, apontar o dedo e dar duras. Também o faço. Felizmente, hoje passou a ser escolha e não minha única opção.

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