Confiança e acesso são uma conquista a partir dos privilégios que acumulamos na vida

Tempo de leitura: 3 minutos

O ano era 2016. Eu viajava para a Europa pela segunda vez. O motivo: visitar a família da Laura, que é belga.

Ao desembarcarmos em Amsterdã (Holanda), precisávamos passar pelo controle de fronteira (esse pessoal que fica controlando documentos) para entrar na Europa.

A Laura, por ser cidadã europeia, passou pela fronteira pelas catracas automáticas, que validam passaportes europeus eletronicamente. Sem burocracia. Escaneou o passaporte, passou. Inclusive, tem essa tecnologia no Brasil também.

Eu, claro, precisei pegar a fila de quem está dando entrada na Europa, mas ‘não pertence a essa terra’.

Na fila, me lembrava da primeira ida (em 2015) onde precisava comprovar o porquê de querer entrar na Europa. Informar quem tinha me convidado (tinha uma carta). Mostrar a passagem de volta, com data marcada. Comprovar que tinha dinheiro pra estar ali no tempo planejado.

Bem, voltemos a 2016.

Chegou minha hora de ser atendido. Com aquele complexo de vira-lata, me achando inadequado só por tentar entrar na Europa. Brasileiro. De pele morena. Cabelos encaracolados e barba a fazer.

O coração, palpitando. O medinho (cagaço) de ser barrado na fronteira se a pessoa ali do balcão tá de mau humor. Ou se enfezar com algo que eu disse, ou não disse, ou deveria ter dito. Ser ‘convidado’ a voltar para o Brasil por não estar ‘apto’ a entrar.

Esse era meu mundo interno na hora. Volta pro atendimento.

O cara me pergunta pra onde vou. Quanto tempo vou ficar. Por que eu quero entrar na Europa. Quais países vou visitar.

Eu respondo:

– Viagem de família. Minha companheira tá vindo visitar a família dela, mas ela passou pelo guichê eletrônico, por ser cidadã europeia. (é inexprimível o calafrio e tensão ao expressar isso aí, em inglês, com o mundo interno que mencionei antes).

Continuamos trocando mais algumas palavras. Passam-se cerca de 4-5 minutos. Ele olha meu passaporte. Olha passagem de volta. Pergunta mais uma coisa ou outra. Olha pra mim, reflete segundos (que pra mim chegava como horas). Carimba meu passaporte.

– Ok! Tá liberado. Na próxima, melhor ela passar com você senão poder ficar complicado liberar sua entrada.

Depois, viajamos outras vezes pra Bélgica. Tempos atrás, pros Estados Unidos. O passaporte, um tanto carimbado já.

Vamos pra 2019. Mais precisamente, 06 de junho. Portugal, no controle de fronteira. Vôo chegando do Brasil.

Em 40 minutos de fila, muitas pessoas apresentando documento. Explicando o motivo de entrar no país. Comprovando renda. Mostrando passagem de volta.

E eu né, imagina aí. Já preparando pra mostrar passagem, pra não acharem que tô indo aproveitar pra “ganhar a vida” e nunca mais ir embora.

Chega minha vez. Eu e Laura no balcão. Contamos que somos casados no Brasil, após questionados sobre nossa relação.

A Laura, passa na fronteira igual água entre as pedras. Flui. Ela é ‘de casa’ né.

Chega eu. Ele vê meu passaporte. Eu já tô com o celular no balcão mostrando passagem de volta.

Ele, nem dá bola pro que falei. Folheia o passaporte. Aponta para o cara ao lado as entradas e saídas anteriores registradas nas folhas. Diz para ele algo como “- Tem uma certa recorrência de viagens pra cá, tá tudo certo.”

Ele olha pra mim: “- Vai lá. Pode entrar.”

Nenhuma conferência. Nenhuma pergunta. Nada.

 


 

Assim se constroem nossas relações. Premissas invisíveis que ditam o fazer ou não fazer, tolerar ou não tolerar.

Com o tempo, com o status que adquirimos em determinado contexto, pode ser que nosso nível de privilégio (acesso a recursos, facilidade de locomoção, acesso a pessoas, etc) aumente.

Ali, já não sou mais o Sérgio brasileiro a ser questionado o motivo de estar entrando na Europa. Tem status. Posição. Vantagens. Poder (aqui, veja poder como a capacidade de influenciar pessoas e situações em diversos contextos).

 

Olhe pra sua volta. Perceba suas relações.

Onde você percebe que tem vantagens que facilitam seu acesso a recursos, das quais nem todas as pessoas podem usufruir? Onde você tem um grande poder?

Escolha uma situação. Reflita sobre o que condiciona essa vantagem. Pode ser uma situação simples.

Capital financeiro? Contatos? Aparência? Lugar onde vive? Roupa que usa? Idiomas que fala? Local onde nasceu? Caminho de vida que trilhou? Formação acadêmica?

 

Consciência de nosso poder e privilégio é fundamental para compreendermos nosso papel na sociedade. Ao ter essa consciência podemos transcender o ‘se eu consegui, todo mundo consegue’. Se fulano fez, qualquer um pode fazer.

Sim, poder até pode! Mas… saiba.

Acesso e confiança, assim como tantas outras coisas, são influenciadas diretamente por uma série de questões. Dentre elas, o contexto social no qual vivemos e a história que se constrói a partir de nosso viver nesse contexto.

Algumas pessoas não tem o mesmo nível de acesso aos recursos e, consequentemente, não recebem as mesmas vantagens no sistema no qual todas e todos vivemos. E quando queremos medir todas e todos pela mesma régua, ainda que com a melhor das intenções de acreditar no potencial de cada uma e cada um, podemos estar sendo imensamente violentos e ignorando as dinâmicas invisíveis que influenciam cada uma de nossas relações, chamando esse boa vontade de “motivação”.

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Sergio Luciano

Sergio Luciano

Sou um dos fundadores da Colibri. Intrigado pela complexidade das relações de poder e privilégio numa sociedade, tenho me aprofundado nesse tema pelo olhar Processwork, uma abordagem terapêutica derivada da psicologia junguiana voltada para mediação de conflitos, facilitação de grupos e autoconhecimento. Também investigo e compartilho sobre comunicação não-violenta e atendo organizações e pessoas físicas no Brasil e no exterior.
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