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No tribunal da internet, cancelamento é pena de morte

– Tempo de leitura: 4 minutos

Este texto foi escrito à época da morte de Byron Bernstein, em julho de 2020. Não é um texto fofo. Tampouco um decreto da verdade. É, tão somente, uma provocação à nova moda que, espero, não tenha vindo pra ficar. Apesar de parecer que o cancelamento virou o novo feijão com arroz da internet.

Byron, profissional de comunicação digital, gamer e influenciador, de 31 anos, pediu sua namorada (ou ex-namorada) em casamento pelo Twitter. O cara foi cancelado por outras pessoas que consideraram inadequada a postura dele, vendo esse pedido como uma pressão sobre ela. Bryon Bernstein tinha depressão. Byron Bersntein cometeu suicídio.

Escrevo esse texto, desacreditado da humanidade. Da humanidade que um dia parece que fomos.

Na real, acho que nunca chegamos a ser essa tal humanidade, enquanto coletivo. E suspeito que, um dia existente enquanto crianças, essa humanidade sempre é destruída no crescer.

Tem gente que vai começar a dizer:

– Mas quem mandou ele fazer essa merda pelo Twitter? Ele deveria saber que, se faz em público, está sujeito a isso.

Se você pensou isso, lamento. Lamento por esse pensamento ser mais uma faceta do tribunal da internet.

Aliás, cada uma e cada um sabe os casos do qual se sente confortável sentando-se no papel de acusador. De jurado. De juiz.

Pense nos seus valores fundamentais… e ali estará o seu assento no tribunal.

Se bem que, hoje em dia, a gente quer sentar em qualquer tribunal que dê prazer de ver a destruição de algo ou alguém. Sadismo que chama, né? Se não como acusadores, como expectadores.

Esse pensamento, mata. Mata, tirando a vida. E leva a morte, em vida, a tantas outras pessoas.

A gente tá impregnado de ódio. Até o talo. Ódio escorrendo pelo canto da boca. Tipo raiva, sabe.

Não, não tipo o sentimento de raiva. Se esse fosse, quão melhor seria. Menos complexo de lidar. Essa raiva da qual falo, é aquela doença lá. Que quem pega fica com a boca espumando a depender do grau de contágio.

Pra essa raiva, a única vacina é olhar pra dentro.

A não ser que você seja a santa ou santo, que escolheu não ser arrebatado para poder viver a infernizar as pobres e agonizantes almas caminhantes aqui na Terra.

Cada um com seus prazeres.

Tem um exercício, que gosto muito, que uma amiga ensinou, que chama Confessionário.

Na real, eu fazia algo parecido com isso, na maior cara de pau, sem de fato olhar pra dentro e esperando uma vaguinha no céu, quando ainda frequentava a igreja.

Mas esse, é mais profundo. Não é para nos livrar do inferno. Diria que é para nos libertar de nós mesmos. De sermos reféns de nossos ódios por quem já fomos. Por quem somos.

Há quem vá dizer que é tentação do encardido. Eu, prefiro a autorresponsabilidade.

Tá. O exercício.

Lembre-se da pior coisa que já fez na vida. Uma que não contaria pra ninguém, senão seria cancelado, sabe? Isso, cancelamento. Essa parada que virou um tribunal online que condena as pessoas à morte por suicídio ou lhes estampa a morte, em vida.

Ou, pega uma coisa mais simples. Essas coisas que você relativiza a partir da sua régua e diz: – Mas isso não é tão grave quanto aquilo, só é algo do qual eu me envergonho mesmo, mas não é feio igual o cara pedir a mina em casório pelo Twitter.

Ao fazer essa coisa feia, ou não tão feia, que pensou, do que você queria cuidar? O que era importante pra você? Carinho, apoio, justiça, diversão, afeto, compreensão, espaço, tranquilidade? Qual outra necessidade?

Pensa por alguns momentos. Se quiser, escreve. Se não tiver muita clareza, digita assim no Google: “lista de necessidades CNV”. Essa lista pode te ajudar.

Ah, se você é o santo imaculado, infernizador das pobres almas terrenas, segura sua ansiedade. E, me diz: -Tá fazendo o que lendo esse texto? Pergunta sincera. Sarcástica, mas sincera.

Encontrou algumas necessidades?

A hora que você se acolher dessas paradas ae que fez, cabeludas ou não, você talvez descubra a insanidade que é esse tribunal da internet. Esse acolher não significa concordar, mas buscar compreender e ter outros olhares, sustentar o desconforto de olhar para aquilo e perceber que a merda grande é parte da história, mas não toda.

Tô ligado. Quanto mais cabeluda a parada, mais difícil, mais vai exigir energia (mental, emocional, espiritual e física) para entrar no modo acolhimento. Mas, você acha que ler meia dúzia de livros de empatia, ou um curso de final de semana, dá conta de fortalecer esse músculo ae? Ledo engano. Academia, mermão.

A hora que você aprende a se acolher, aprende a acolher o outro. O mundo se transforma de dentro pra fora.

Nessa hora, a gente consegue deixar de lado o papel de juiz.

Nessa hora, a gente consegue começar a se dispor a escutar e não apenas apontar o dedo.

Nessa hora, a gente descobre que cancelamento não é o único caminho.

Nessa hora, a gente às vezes começa a refletir se precisamos opinar sobre tudo que é coisa nesse mundo.

Nessa hora, a gente começa a tocar a humanidade. Ela começa a raiar em meio às espumantes nuvens de ódio.

Nessa hora, suspeito que Jesus abre um sorriso tímido, de esperança, em meio aos lutos diários: – Perdoa Pai, eles não sabem o que fazem.

Nessa hora, a gente se lembra que, do outro lado de cada tela, existe uma pessoa igual a gente. Ser humano. Existe uma história. Muito mais complexa que nosso Tico e Teco estão a tentar simplificar.

– Mas Sérgio, tem coisa que não dá né! Não tem como não julgar e desejar a morte daquele avatar na internet com um nome de usuário…

Volta lá pro começo do texto. Sai do papel de juiz.

E se seu questionamento for por conta de assuntos mais pesados e polêmicos (prefiro não citá-los, mas suspeito que saiba qual é, se assim o pensou)…

Respira fundo. Uma, duas vezes. Agora, continua a ler.

Meu bem, esses assuntos, uma postagem, não importa o tamanho, não daria conta de esgotar. Se você realmente quer bater um papo sobre e não apenas defender uma verdade já enraizada, a gente pode pensar numa conversa ao vivo para juntos explorar.

Por último, não menos importante:

– Mas Sérgio, e depois de acolher? Fica por isso mesmo?

Permita-se acolher, genuinamente. Quando assim o fizer, vem me contar o que deu vontade de fazer depois.

Texto de Sérgio Luciano, da época que escrevia sua coluna semanal no UOL Ecoa.

Sergio Luciano
Um mineiro que gosta de conversar, aprender com o cotidiano e escrever. Investiga psicologia junguiana, comunicação não violenta, poder, privilégio, democracia profunda, dentre outros temas, para tentar entender um pouco mais esse negócio de relacionar-se com o diferente.
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