ter razao doce tentacao

Ter razão. Minha doce tentação

(Tempo de leitura: 4 minutos)

Tem uns cinco anos que busco conscientemente integrar uma comunicação não violenta na minha vida. Pra mim, isso significa, em primeiro lugar, me acolher nas escolhas que faço, apesar dos impactos que elas causam em alguns momentos (diferentes do esperado, por exemplo).

Também significa perceber minhas violências. Não só estas óbvias, verbais. Gritos. Xingamentos. Piadas desnecessárias. Machismos de cada dia. E por aí vai. Tem outras, mais sutis. Como querer ter razão numa conversa. Sim, ter razão. Te mostrar que eu tô certão e você tá passando longe da razão. Ganhar a parada. Sentir-me bem em te ensinar o certo.

E nesse ter razão, o calo aperta. É difícil pra diacho sair dessa lógica. Ainda mais quando “eu sei do que tô falando”.

Mas de onde vem essa vontade louca e irresistível, indomável, de querer que minha voz prevalesça e a outra tenha menos espaço e protagonismo?

De onde vem toda essa defensividade, da qual me armo e coloca o outro no lugar de inimigo e que atenta contra a minha integridade moral ao invalidar o que eu digo?

Suspeito, não sei ao certo.

Percebo que tem horas que aprendizagem parece super importante pra mim. E aprendizagem significa que o outro compreenda que eu estudei alguma coisa mais que ele. E que eu já caminhei por esse caminho, e tenho uma resposta satisfatória, validada, certa.

Percebo que tenho intenção de contribuição. Contribuir com aquela pessoa com aquilo que sei, às vezes até como um ato de cuidado e amor. Cuidado e amor se manifestando no trazer algo novo pro outro, que talvez ele não tenha visto.

Percebo uma necessidade de ser visto. Autoafirmação. Auto aceitação. Ser visto por mim mesmo. Ser reconhecido pelo outro. Ter minha existência validada no saber que adquiri. E isso vem com tanta ansiedade… nossa. O corpo até treme de ansiedade. Os lábios secam e os olhos saltam.

Isso tudo chega com uma intensidade fervorosa. Numa estratégia nada amistosa.

“Olha, você tá errado. Não sabe do que tá falando. Eu já vivi essa parada, já estudei tudo isso aê. Estamos perdendo tempo e depois você vai ver que eu estava certo.”

Essa é uma de minhas diversas falas. Exemplo de como eu vou pro jogo do certo e errado num piscar de olhos. Talvez você tenha o seu próprio jeito de mostrar que tá certo, né.

E nessa hora da razão eu percebo que já não estamos mais numa relação de troca. De parceria. De construção conjunta do que, naquele momento, seria o nascimento do nós dentro da relação. Tem só colonização, ainda que cheia de boa intenção.


Calma Sérgio. Respira rapá. Nesse jogo ae, dá pra todo mundo fazer parte. Ser colaborativo.

Olha. A pessoa tá na jornada dela. Vindo de um outro lugar diferente do seu.

Nem melhor nem pior, apenas diferente. (salve MC Marcinho, furacão 2000)

Que tal chegar junto no caminho da conexão? Sossegar o seu facho e se permitir estar presente, sem querer mudar o outro. Intenção genuína em saber sobre de onde o outro vem, se encontrar com ele?

– Ah, vamos tentar né! De treta eu já to cheio, mesmo.

Ao invés de dizer que o outro tá errado… que tal tu investigar sobre de onde vem aquilo que a pessoa diz.

– Hmmm… não custa tentar né.

eu: – Fulano, eu penso um tanto diferente do que você falou. Mas, olha… me parece que essas ideia ae tem feito sentido na sua caminhada né. Me conta mais? O que te trouxe até aí?

outro: – Rapaz, aprendi isso na vida que levei. Passei por umas experiências que me reforçaram essa ideia, saca? E também eu tava refletindo aqui, com meu tico e teco. E acho que é assim uai.

eu: – Olha que interessante. Agora sei um pouco melhor sobre essas ideia tua ae. Quer dizer que pra você é importante valorizar sua experiência e ela te traz perspectivas de como é o todo? E essa é a lente pela qual você olha os outros?

outro: – É… bem… acho que é. Nem tinha parado pra pensar nisso. Mas tipo, é meio óbvio que passar por isso leva a gente a esse caminho. Conheço umas 4 ou 5 pessoas que também passaram pelo mesmo. Batata. Mesmo resultado.

eu: – Poxa, então agora faz mais sentido ainda pra mim. Da hora que tu trouxe que já conversou sobre isso com outras pessoas e que te trouxe mais confiança nessa visão ae.

eu: – Queria te contar um pouco de como foi pra mim. Me parece que em alguns aspectos é diferente, mas talvez até tenhamos uma sinergia no meio do caminho. Topa escutar?

[…]

Fim.

Sim… fim.

Não é sobre eu precisar explicar meu ponto de vista. Sobre o que o outro acharia do meu ponto de vista. Sobre se vai gerar treta ou não. Se vai ser tudo fofinho e perfeito.

É sobre eu segurar essa ansiedade doida de ir com os dois pés no peito e definir o limite da conversa de acordo com minha régua e sabedoria. É sobre eu me permitir estar ali, presente e com interesse genuíno no outro. Não na minha verdade. Não na verdade dele. E sim no ser humano que, ali, comunga desse tempo comigo.

O encontro. A troca. A expressão. Sem razão. A conexão.

– Ah, mas é tão gostoso quando sou apreciado por ter ajudado a outra pessoa a chegar num ponto de vista que eu sabia que ela chegaria…. e quer saber… ela tá errada mesmo. Se eu não falo nada, ela vai continuar errada e….

Menino, vai cuidar dessa criança ferida. Me parece que ela tá disparando a torto e a direito esperando amor e atenção. Já se abraçou hoje?

E, aliás, já pensou que a sua vontade de ensinar a qualquer custo interfere na liberdade de o outro querer ou não te escutar? Segura a onda que no pacote tem mais bolacha. Tu não é a última não, viu.


Ter razão. Eita doce tentação.


1. não quero entrar no mérito de dizer ou não o que deve ser dito. senão, lá vai eu querer ter razão. o negócio é deixar a pulga atrás da orelha, para refletir que essa nem sempre precisa ser a única opção.

2. quando falamos de opressão, o buraco é muito mais embaixo. então, cuidado. esse texto não é necessariamente a definição de um padrão.

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