Facilitação de grupos e a arte do invisível

Tempo de leitura: 2 minutos

Vez ou outra recebemos na Colibri perguntas com o tema “como eu poderia facilitar determinada atividade com o grupo xyz?”

Me inquieto com estas perguntas, vistos os 8 anos que dedico energia a facilitar grupos, estudar sobre desenvolvimento humano e me aprofundar no tema.

Me inquieto por dois motivos:

1. Por adorar conversar, contribuir e apoiar pessoas em seus processos. Principalmente a parte criativa de pensar em atividades que trarão espanto (ah mestre Rubem Alves, professor de espantos), prazer e aprendizado para participantes.

2. Por sentir no corpo físico, emocional e espiritual os reflexos da energia dedicada a sustentar espaços seguros de exploração, troca e aprendizagem baseada na experiência.

 

A facilitação de grupos, pra mim, começa na minha escolha diária de viver uma vida mais consciente de meus sentimentos e necessidades. De meus padrões de comunicação. De minhas crenças e valores. Da minha história e de como cheguei até aqui.

Ser anfitrião de mim. Me acolher. Experimentar dentro aquilo que desejo levar mundo afora.

Como vivo a diversidade de “Sérgios” que existem em mim? Acolho apenas as partes minhas que gosto? Existe algum espaço de acolhimento para as partes que normalmente marginalizo?

Meu crítico interno. Como lido com ele? Tenho sido capaz de oferecer-lhe escuta? Capaz de compreender aquilo que está por trás de meus julgamentos sobre mim mesmo?

Como lido com o Sérgio sem compromisso consigo mesmo, que faz tudo diferente daquilo que espero? Estou condenando-me o tempo todo por ser quem sou? Me forçando a ser “perfeito” a qualquer custo?

Como lido com a surpresa de eu ser preconceituoso, julgador e violento? Nego veemente e busco me justificar para “parecer bom moço” aos meus próprios olhos? E como transpareço/reflito isso pro meu entorno?

Há tantos “Sérgios” que eu gostaria de enterrar para nunca mais surgirem… é um desafio diário de perceber que sou tudo isso. Não só. E muito mais.

Anfitriar. Escutar. Acolher. Ser. Inteiro.

Veja. É diferente de ser complacente. Ou se justificar. Usar tudo como desculpa.

É sobre se vulnerabilizar. Reconhecer que a vida é um eterno caminhar. E que o agora é o momento que tenho para novas escolhas conscientes.

 

– Mas Sérgio… que raios isso tem a ver com facilitação de grupos?

Aprendo e reaprendo dia-a-dia que a legitimidade do papel de facilitador nasce do viver. Nasce da decisão genuína de trilhar o caminho do qual resolvi partilhar.

Longe de ser uma única verdade, é uma decisão minha de buscar coerência entre falar e agir.

E longe de mim reivindicar a pureza de um santo que tudo sabe e só tem coisas a ensinar.

Facilitar, pra mim, é viver as dores e delícias de ser quem sou. Com alegria e sorriso no rosto, lembrando que a vida é um eterno aprender.

 

Diante de um grupo, sê inteiro. Acolhendo todas as suas partes.

E a parte mais técnica… aquela de dicas de qual atividade construir e qual resultado obter… que a parte criativa entra em ação…

Esta é, de longe (pra mim), a parte mais simples da facilitação.

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Sergio Luciano

Sergio Luciano

Sou um dos fundadores da Colibri. Intrigado pela complexidade das relações de poder e privilégio numa sociedade, tenho me aprofundado nesse tema pelo olhar Processwork, uma abordagem terapêutica derivada da psicologia junguiana voltada para mediação de conflitos, facilitação de grupos e autoconhecimento. Também investigo e compartilho sobre comunicação não-violenta e atendo organizações e pessoas físicas no Brasil e no exterior.
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