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Saia da zona de conforto

Sobre respostas prontas e nossa inabilidade de pensar a complexidade

– Tempo de leitura: 4 minutos

VOCÊ NÃO SABE O QUE DEUS QUER DAS PESSOAS.

Foi assim que eu terminei um treinamento de 20h sobre Comunicação Não Violenta, para mais de 130 colaboradores de uma empresa inspiradora lá do sul do Brasil, depois de receber uma apreciação sobre nosso estilo de facilitação, que é composto por:

– Zero respostas prontas

– Provocações ao pensamento crítico

– Pitadas e mais pitadas de psicologia (junguiana)

– Resgate a saberes da filosofia

Ouvir que aquilo que oferecemos chegou diferente, pois a gente se priva de dar respostas e está o tempo todo estimulando o pensamento crítico e escolha consciente, dá um calorzinho no coração. Faz aterrar e ver que o único caminho a se seguir é o caminho dos fios de nosso destino.

É difícil, gente, num mundo que anseia respostas prontas para problemas complexos, na pílula milagrosa que dê conta de resolver os problemas, sustentar um espaço de estímulo ao pensar.

Autoajuda, um beijo e um queijo.

E não, não estou tirando o valor de receitas prontas. De fato, elas são ótimas companhias em diversos almoços e jantares que preparamos, sabe. Dão uma refeição maneira e saborosa.

Mas, às vezes, precisamos mesmo é ser o chefe de cozinha. Pegar toda aquela coisa nossa (vulgo, bagunça interna) e lidar com isso. Preparar. Encontrar temperos. Criar nossa receita. E, claro, descobrir como continuar saboroso, com os ingredientes que o outro traz. E, ainda por cima, harmonizar com o vinho.

Voltemos pra frase em CAIXA ALTA, lá do começo. Ela está inserida num contexto bem profundo, então continue lendo por sua conta e risco. Bem, nos viramos depois com o que surgir, se tu quiser deixar um comentário.

Em seu livro Psicoterapia, Von Franz relata uma conversa que teve com Jung, sobre uma paciente sua:

Meu primeiro paciente que sofria de psicose grave era uma mulher que estava indo em direção a um episódio esquizofrênico em decorrência de um golpe externo do destino, e eu estava lutando com ela para evitar que isso acontecesse. Nesse ponto, Jung, que estava supervisionando o caso, disse-me seriamente:

“Como você tem tanta certeza de que essa mulher não tem que passar por esse episódio? Muitos pacientes melhoraram depois de um episódio. Você não deveria estar tentando aprender o segredo do destino dela; é apenas um jogo de poder. Você não sabe o que Deus quer dela!”

Assustada, simplesmente desisti e me restringi a calmamente interpretar os sonhos dela o mais diretamente possível. A analisanda inexplicavelmente melhorou. Quando contei o fato a Jung, ele riu e disse:

“Era isso que eu esperava, mas não podia dizer nada porque senão você poderia ter tentado forçar alguma coisa de novo!”

Aquilo me curou de vez de qualquer entusiasmo terapêutico juvenil excessivo.

Me perguntam se eu acho que a Comunicação Não Violenta é necessária. Se todo mundo precisa conhecê-la. Se ela “precisa ser usada” o tempo todo. Se é errado jogar o jogo do chacal e brigar. Se é errado apontar dedos.

Oras, como eu, apaixonado por esse senhorzinho chamado Jung, poderia responder de forma simplista “a CNV é o caminho certo a se seguir”.

Claro que, do ponto de vista da coletividade, e seguindo meus princípios e valores enraizados numa cultura de cuidado, inclusão, diversidade e equidade, acho sim que todo mundo “DEVERIA” aprender CNV e vive isso cada vez mais.

Mas, tem também o indivíduo, diante de valores que me são caros. E ele, enquanto indivíduo, não sei o que TEM QUE ou NÃO TEM QUE acontecer na vida dele. O que é certo ou errado ele fazer.

Sei que as ações terão impactos. A pressuposição de que uma ação é passível de acontecer, terá impacto. E, diante disso tudo, tenho escolhas.

Agora, o que escolher? O que fazer? O que dizer? Como seguir?

Mero jogo de poder, tentar dizer ao outro aquilo que é o melhor, ou o que ele deve fazer, de forma arbitrária.

Significa que então tudo é permitido, e qualquer um pode fazer qualquer coisa? Não!

Significa que viver é complexo pra caralho e que, ao falar de relações humanas e psique, tenho aprendido que, ainda que eu não consiga fugir 100% da minha equação pessoal, ou seja, meu olhar pro mundo é contaminado e tendenciado pelas minhas lentes, ainda posso tentar dar nome aos bois.

– E como fazer para lidar com determinada situação, Sérgio?

Sei lá, meu filho! Me diz o que te apetece nisso tudo, e comecemos por aí. O futuro, a deus pertence, e vamos deixar ele nos dizer como seguir daqui em diante.

Escutemos a nós. Escutemos o outro. Escutemos o que parece estar entre nós. Então, dali em diante, é uma construção.

E sim, temos o viver numa sociedade fodida pra caralho, injusta ao infinito e que tá cheia de merda. Esse é um outro papo, convergente e transversal. E não inviabiliza a conversa sobre psique e individualidades. Aliás, é justamente essa dança que busco aprender a bailar, ao lembrar que não sei o que deus quer das pessoas.

Entretanto, sei que ainda sou um jovem excessivamente entusiasmado. E Voz Franz e Jung sempre me fazem o grande favor de lembrar disso.

Ah danada complexidade, que na desatenção se esvai entre os dedos prepotentes e arrogantes, que tentam controlar os fios do destino. Meu. Do outro. Do mundo.

Complexo de Moira, talvez?

As moiras (em grego: Μοῖραι), na mitologia grega, eram as três irmãs que determinavam o destino, tanto dos deuses, quanto dos seres humanos. Eram três mulheres lúgubres, responsáveis por fabricar, tecer e cortar aquilo que seria o fio da vida de todos os indivíduos. Durante o trabalho, as moiras fazem uso da Roda da Fortuna, que é o tear utilizado para se tecer os fios. As voltas da roda posicionam o fio do indivíduo em sua parte mais privilegiada (o topo) ou em sua parte menos desejável (o fundo), explicando-se assim os períodos de boa ou má sorte de todos. As três deusas decidiam o destino individual dos antigos gregos, e criaram Têmis, Nêmesis e as erínias. Pertenciam à primeira geração divina (os deuses primordiais), e assim como Nix, eram domadoras de deusas e homens.

As moiras eram filhas de Nix a deusa da noite. Moira, no singular, era inicialmente o destino. Na Ilíada, representava uma lei que pairava sobre deuses e homens, pois nem Zeus estava autorizado a transgredi-la sem interferir na harmonia cósmica. Na Odisseia aparecem as fiandeiras.

Fonte: Wikipedia
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