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Qual o limite da escuta?

– Tempo de leitura: 6 minutos

– Mas Sérgio, parece que essa coisa de ter uma postura de empatia numa conversa é um processo que não tem fim. Qual o limite desta escuta? E não passamos nenhum momento para uma solução?

Recebi uma pergunta mais ou menos assim durante uma facilitação nos últimos dias.

Esse é um dilema que tenho percebido bastante de pessoas que começam a se envolver com uma mudança em sua forma de comunicar e desejam melhorar sua capacidade de escuta.

IMPORTANTE: ESCUTA, aqui, significa manter-me com intenção de conectar-me com os sentimentos e necessidades do outro, com o que lhe é importante por trás dos julgamentos que ele traz e que eu tenho, seguindo premissas básicas da Comunicação Não Violenta.

1. Por que você está escutando?

Uma coisa a se pensar é: a serviço do que está minha postura de escuta. E isso está intimamente ligado à compreensão da minha intenção durante a conversa. E não ache que exista a intenção correta. Aquilo que você quiser, que seja bem vindo. E que você seja consciente disso.

Há quem queira escutar o outro porque quer compreendê-lo. Outros, vão querer escutar para abrir um espaço para depois expressar suas opiniões com mais chance de serem ouvidos. Alguns porque entrarão no papel de terapeuta (muitas vezes, sem saber) e estão ali com a ideia de levarem o outro a uma solução, ou até cura. Ah, alguns vão colocar o chapeuzinho de coach e definir próximos passos de ação. Talvez, há quem vá misturar tudo isso e fazer uma grande salada de frutas e sequer sabe o que deseja.

Uma vez que você começa a compreender de onde partem suas ações, os objetivos ocultos que até então só você sabe, ou não sabe, pode escolher o que fazer com isso.

E… levando essa perspectiva a um nível teórico, olhar para suas intenções é, nada mais, do que um processo de autoempatia. E, pra mim, TUDO começa pela autoempatia.

Se quero ajudar o outro, talvez o faça porque percebo que apoio e contribuição são importantes pra mim. Talvez carinho e afeto. Até mesmo podemos imaginar que tranquilidade seja importante, e só fico tranquilo vendo o outro “saindo do buraco que está”. Então, quero arrancá-lo de lá a todo custo.

2. Assuma para si mesmo o que busca, e lide com isso.

Há pessoas que começam a se dedicar à Comunicação Não Violenta e se recriminam por quererem convencer o outro, ou por não conseguirem “só escutar”, dada a importância que se dá ao estar presente e acompanhar. Com isso, correm o risco sério de desumanizar-se e criar uma cisão interna:

– Eu estou errado em querer dar minha opinião. Estou errado em querer buscar uma solução. Eu DEVERIA estar aqui aberto e atento.

Pronto! A partir desse momento já definimos aquilo que é o caminho correto, e tudo que é diferente, marginalizamos. Fica pra escanteio. Logo, que feio é ter uma coceira na língua quando alguém precisa de apoio, que nesse contexto significaria escutar sem opinar.

Lembre do que citei acima sobre autoempatia. Não é sobre algo estar certo ou errado, senão sobre compreender nossas intenções.

Agora que entende suas intenções e pode vê-las como uma parte sua, mas que não é a totalidade da sua experiência, bem vindo à liberdade de escolha

3. Você pode tudo. E o que lhe convém, no agora?

Voltamos agora à escuta. A ideia de estar presente e acompanhar o que o outro diz, buscando compreender como ele se sente, e o que lhe é importante, traz consigo um pressuposto de verificar com ele se aquilo que imaginamos está próximo do que o mesmo vivencia.

Sim. A gente muitas vezes acha que sabe o que o outro disse, o que lhe é importante. Aí, partimos de nossos achismo. Dá merda. Nos esquivamos da responsabilidade de ter verificado. Apontamos o dedo pro outro.

Então, rola barraco. Treta. Alguns barracos enormes e dignos dos programas de fofoca. Às vezes, aquele prejuízo ou atraso num projeto no trabalho. Pessoas deixam de conversar. Continue essa lista com tudo aquilo que tu já viu ou passou por conta de uma comunicação que não funcionou legal.

Portanto, você pode ter uma vontade enorme de dar um pitaco sobre o que acha que o outro deve fazer. Entretanto, lhe convém verificar antes de opinar, para saber se o outro topa ouvir? E como você se sentiria se ele dissesse que não tá a fim de uma opinião? Qual seria sua reação? A pensar, hein.

Durante uma reunião, quando tem aquele frio na barriga quando alguém fala algo, o que lhe impede de verificar e buscar mais compreensão, ao invés de dizer “entendi tudo”, ainda que não esteja seguro disso? Ou antes de retrucar e dar uma aula?

Você quer resolver o problema do outro porque vê, ou acha, que ele está em sofrimento? Como você lida com o sofrimento? E com a impotência de nada poder fazer? Você se permite viver o luto?

Tudo isso, passa pela autoempatia.

Escolha o que quiser. Quem sou eu pra dizer o que é mais certo ou errado. Apenas lembre-se que sua escuta está num contexto. Contexto este que ninguém de fora pode dizer o que é, senão você mesmo, a partir da sua intenção.

4. Sérgio, você não respondeu qual o limite da escuta…

Respondi. Subjetivamente. Com provocações. Agora, vamos a um exemplo.

– José, eu tô com muita raiva. Não acredito que fulano fez isso e aquilo outro.

– Ah Jorge, que barra. Imagino que você tinha esperança que fulano tivesse mais responsabilidade.

– Não. Responsabilidade não. Cuidado mesmo. Como assim esquecer algo tão importante?

[José percebe que tá querendo resolver as coisas, pois passou por algo igual e acredita ter a melhor resposta pra esse tipo de situação. Entretanto, decide seguir dialogando, escutando empaticamente, para ter mais clareza do que se passa.]

– Ixi Jorge. Então na real tá parecendo que você tá mega frustrado uai. E que esse cuidado aí que disse, parece ter a ver com a vontade que, em caso de dúvida, lhe perguntassem. Talvez pra garantir que você tenha liberdade de seguir com isso ou não?

– Claro! Frustrado demais. Agora eu tenho que resolver e fazer um monte de coisa, sendo que não toparia se tivesse possibilidade de escolher. Deixaria pra outro!

– Ahá! E quando você descobre de surpresa, e mudam os planos, zero previsibilidade né.

– Claaaro meu filho. Quem gosta de ter que ficar igual idiota refazendo coisas, sem ser consultado!?

– Ave Maria. Ainda tem um pouco de incômodo por ser eficiente e fazer bom uso do seu tempo. E mudando planos, a eficiência vai pro espaço.

– Ahaaam! Isso mesmo.

[José sente que tem mais clareza e conexão com o que Jorge valoriza. Quer dar um pitaco. Quer dizer “para de reclamar e faz”, pois é isso que ele faria. Não sabe se faz sentido ficar escutando ainda. Tá perdido.]

Nessa hora, José escolhe “finalizar a escuta e partir para um próximo passo, ainda que não saiba qual é direito.

– Bom Jorge, tô curioso se tem como eu contribuir de alguma forma.

– Não sei, viu. Falar contigo me ajudou a entender que tudo que eu queria era ser consultado antes. E não fazerem, achei que foi desrespeitoso.

– Ah, e que tal… [Jorge morde a língua e respira, evitando dar sua opinião] Não, na verdade… eu passei por situações semelhantes, e quero saber se tu quer ouvir alguma experiência que tive, alguma dica de como resolver.

– Não não… tô de boa. Só quero relaxar e deixar essa raiva passar. Depois penso nisso.

– Tá. Tô com comichão aqui pra te contar. Mas acho massa que me contou que quer relaxar, porque eu quase meti com a língua nos dentes e ia te dar uma aula de como resolver.

– Ainda bem que não fez… senão eu ia te mandar pra aquele lugar viu. (Em tom de brincadeira, seguido de risadas)

– Pois é rapaz. Olha que é a primeira vez que mordo a língua. Outras vezes, já falei pelos cotovelos.

– Quem diria hein… deixando de vestir o chapeuzinho de coach e professor? Uau!

– Vai-te à merda, José.


Esta historieta é um exemplo simples e bobo da autopercepção e escolha de quando deixar o modo escuta empática e seguir a troca de outras formas. Claro que nem sempre será tudo fofo e fluido assim.

Foi o momento certo? Ou errado? Sei lá! Foi o momento do Jorge, horas. E tu terá o teu, ou não. Pratique. Estude. Conheça-se. É sobre você ter autonomia de construir seu caminho. E sem “a resposta certa” o caminho pode ser meio amedrontador. Faz parte.

5. Cuidado: você não é terapeuta do outro

A prática que estou trazendo nesta partilha tem a ver com uma postura de escuta, e não uma sessão de terapia. Portanto, fique atento ao tentador desejo de achar que tem um conhecimento que pode levar o outro à iluminação, colocando-se num lugar de superioridade e achando que tem que levá-lo a ter mais clareza sobre si.

Quantas vezes já achei que seria massa continuar tentando compreender melhor o outro, seguindo a cartilha da escuta empática… e dei com os burros n’água.

Já culpei muito o outro por se recusar a ser escutado por mim, o clarificador de sentimentos e necessidades ocultas dos pobres desconhecedores da fantástica prática que vos oferto gratuitamente e de bom coração.

Pobre alma de boa vontade, que esconde arrogâncias mil, e que pensa olhar pro outro, mas está mais preocupado consigo.

Há momentos que escutar pode ser lindo, mas o outro pede algo diferente. Mas isso, fica pra outra história.
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Quais suas intenções por trás da vontade de escutar? E como isso cuida de você, e do outro?

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