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Falas empáticas não são garantia de segurança psicológica

– Tempo de leitura: 3 minutos

Ter todas as pessoas se expressando de forma empática não é garantia de um ambiente psicologicamente seguro. É uma das características? Certamente. Mas, nem de longe, a única base.

Falo isso porque leio com certa recorrência que para termos ambientes de trabalho mais saudáveis as pessoas precisam aprender a se comunicar de um jeito mais empático, e isso é “o fundamental”.

Ou seja: se solucionamos a “causa”, que é uma comunicação meio zuada, grosseira, violenta, o ambiente vai ser massa por natureza.

Porém, para que isso se torne uma realidade, adivinha o que muitas vezes vem junto? Precisamos rechaçar toda e qualquer comunicação diferente do ideal que esperamos.

Falas grosseiras? – Fora! Se você a tem, precisa urgente se desenvolver para não mais tê-las.

Estressar-se e gritar com o outro? – Acabou! Lide com seus desafios, mas não jogue seu estresse no colo do outro.

Foi hostil com o colega de trabalho? – Revise seus conceitos, parça. Como você age assim com alguém que convive com você?

Em cada uma destas posturas está a ideia de que a responsabilidade única e final está em quem agiu de maneira A ou B, que destoou do correto. Veja, não disse que ele não é responsável. Eu disse responsabilidade única e final.

Mas… espera… tem algum caroço nesse angu.

Se nossa busca é um ambiente de segurança psicológica, e nossa premissa é que a empatia faça parte de nossa comunicação, onde entra nossa atitude empática diante de algo que o outro fez, em caráter de acolhimento e compreensão?

Proponho um ajuste de perspectiva. Uma ampliação, na real.

1. Cuidado mútuo

Sim, é importante cuidarmos de nossa fala e comportamento para contribuir com o bem-estar uns dos outros e criar um ambiente de mais cuidado. Fato.

2. Olhando além da violência e desrespeito

Comecemos a olhar para as atitudes ditas violentas e grosseiras de um indivíduo como expressões trágicas que tentam cuidar de algo importante para si, e chegam com impactos que descuidam do outro.

Recorte didático: entenda violência aqui como ações cotidianas que podem ser desrespeitosas em alguma medida, mas não cruzam o limiar de agressões físicas ou assédio moral. Para estes casos, ainda que possamos falar de restauração, um textinho curto desse não daria conta de endereçar.

3. Escuta profunda

Ao invés de dizer “não podemos ter esta atitude”, criemos o hábito de escutar as entrelinhas da mesma.

Exemplo: – Quando fulano grita com outro durante a reunião, imagino que esteja estressado e preocupado porque deseja mais compreensão para a importância da colocação que está a trazer.

4. Reparação diante do conflito ocorrido

Vivamos esse conflito e cheguemos num lugar de reparação de um possível dano que foi causado, bem como de cocriação de novos acordos de convívio que deem conta de tornar o espaço ainda mais cuidadoso e saudável.

Exemplo: – Bom, então que tal agora mesmo, e em futuras reuniões, fazermos uma verificação se todos compreenderam, antes de passar para um próximo ponto, ou de refutar aquilo que está sendo dito?

Uma solução cocriada dá conta de atender às necessidades de quem se estressou, de quem se afetou com o estresse e melhorar a relação para que este tipo de desafio seja endereçado. Certamente outros surgirão no futuro. E assim vamos nos lapidando.

5. Liberdade, afetos e cuidado

As pessoas são livres para expressarem suas dores e afetações, que às vezes vai sim chegar como grosseiro para o outro. E ao mesmo tempo que lhes é feito o convite para serem mais empáticos, lhes é garantido o direito para não o serem.

Não porque são maldosos, ou estão de sacanagem, mas porque talvez foi a expressão que mais fazia sentido para expressar o descuido com algo importante.

6. Responsabilidades individuais e acolhimento

Tudo isso não impede que cada pessoa dedique-se ao auto desenvolvimento, certamente. Porém, agora, o foco não está em “fazer com que falemos de forma empática como meio para a segurança psicológica”.

Estamos buscando a construção de um ambiente psicologicamente seguro para que cada um, em meio aos desafios, possa ser compreendido e acolhido, bem como se responsabilizar pelos impactos de suas ações, sempre que necessário.

Aqui, responsabilizar não é punir. É reconhecer o potencial dano que causou e buscar alternativas de restauração no agora, bem como definição de novos acordos de convívio.

Depois disso tudo, talvez fique uma pulga atrás da orelha:

– Mas Sérgio, se a gente abre espaço para tudo e não define que temos que ser empáticos, vamos deixar espaço aberto para que as pessoas não sejam. E aí, como faz?

Olha, te contar um segredo, que nem é tão secreto assim:

Se precisamos partir do pressuposto que alguém terá uma atitude dessa de sacanagem apenas, é porque a segurança psicológica não existe. Nesse caso, tu acha mesmo que dizer que precisamos mudar a forma de falar vai endereçar essa questão?

O buraco é um pouco mais embaixo. E tudo começa pela ressignificação do que entendemos, coletivamente, como relação.

Excesso de luz pode cegar, mas a gente se ilude e acha que está só buscando um pouco mais de iluminação. Uma hora a sombra vem para cobrar a conta.

Luz e sombras caminham juntas.

Sergio Luciano
Um mineiro que gosta de conversar, aprender com o cotidiano e escrever. Investiga psicologia junguiana, comunicação não violenta, poder, privilégio, democracia profunda, dentre outros temas, para tentar entender um pouco mais esse negócio de relacionar-se com o diferente.
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