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Eu, você, Rússia, Ucrânia, EUA… para além de nossa disputa por opinião

– Tempo de leitura: 6 minutos

Em 2022 uma guerra estourou. Sim. Estourou. Afinal, uma guerra não se inicia da noite para o dia, sabe? Esse texto é um convite à escuta. De nós mesmos. Uns dos outros. Quem sabe deixe uma pulguinha atrás da orelha por aí.

Guerras matam. Todos os dias. Ao redor do mundo. O que é a paz, em meio aos imensos conflitos que ainda perduram? O que é a paz em meio aos reflexos destes conflitos, que reverberam nas próximas gerações?

UTOPIA. Hoje, ao menos. E que não percamos de vista esta utopia. Do contrário, já aceitamos que guerrear será o único caminho. Ainda que, hoje, guerrear se mostre o mais queridinho dos governos aqui e acolá, que um dia esta realidade a gente consiga mudar.

Coisas importantes ditas primeiro, sigamos com meus 0,01 centavos de contribuição sobre a gente no meio dessa guerra a muitos mil km de distância física. Quando digo gente, falo de gente comum e ansiosa por posicionar-se, tipo eu e você. Posicionamentos de gente com poder nas mãos, envolvendo política e afins, uma publicação talvez não seria suficiente pra cuidar.

Tô lendo faz uns dias sobre posições de fulano e ciclano. Contexto histórico. Pedidos de atenção com avaliações simplistas. Definições do que a parada toda significa, sem margem para o contraditório. Sobre mocinhos e bandidos. Sobre a ausência de mocinhos e bandidos.

Entretanto, me privarei de falar a partir de qualquer um destes papéis, ou refletir as vozes que já li e escutei destes papéis. Nada de analista. Relações Internacionais. Anti imperialista. Anti comunista. Democrata. Liberal. Historiador. Essas visões já ecoam bastante. E se chocam bastante. Basta dar um Google. Ou visitar o campo de batalha de narrativas pulsante no Twitter.

Nesse texto quero me conectar contigo a partir de vozes que me são mais caras neste momento. Mais profundas. Os impactos disso tudo em meu senso bem-estar e no seu. Como isso descuida daquilo que nos é importante. Como nos sentimos diante de tudo.

Não vou definir a experiência de toda uma sociedade, mas pretendo modular algumas vozes que tenho lido e investigar o que está abaixo da superfície, tentando trazer uma comunicação a partir dos impactos sofridos, e não de opiniões.
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  1. Porra Putin, guerra?

Essa voz é bem forte. Rola uma tristeza e desânimo, sabe? Século 21. Já passamos por tanta merda antes. Já vimos tantas experiências ruins de guerras e invasões. E tu, que tem umas parada nuclear ainda aí, vai mandar essa?

Cara, que medo da porra. Quero segurança. Um futuro pra mim, para as próximas gerações. Onde fica a sanidade nessa tensão toda, meu? Tu consegue dormir, Putin?

Se tu joga uma bomba nuclear ae, o planeta fica como? E se os EUA resolvem também apertar um botãozinho lá? E sabe-se lá quem mais tem esses botões malditos.

Ademais. Cara, tem gente morrendo lá na Ucrânia. Gente que é inocente. Tava vivendo sua vida ali. E se vê no meio de um fogo cruzado. Criança, meu. As que morrem, e as que estarão traumatizadas pelo RESTO DA VIDA.

Tenho empatia, sabe? Injusto, poxa. Quero que esse povo todo seja livre, tenha segurança, tenha bem-estar. E quanto mais essa invasão avança, menos vejo isso tudo sendo cuidado.

DESFECHO “ÓBVIO”: repudiamos essa guerra e queremos que ela cesse imediatamente.

Mas há muitas outras vozes, por trás de muitas outras opiniões, viu?
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  1. Mas a Rússia tá em perigo. Isso vocês não querem aceitar, né? EUA não é santo não.

Eu vejo você, EUA, declarando repúdio à invasão da Ucrânia, mas você invade tudo que é canto, poxa. Cadê a coerência? Você se acha o paladino da justiça e só os outros fazem errado? Fico com medo e preocupado, além de desesperançoso, pois parece que você só quer manter seu poder mesmo.

Sabe, acho que você tá se lixando pra Ucrânia. E só quer usar essas mortes a seu favor. Afinal, se você se importasse com vidas, centenas de milhares (ou milhões, sei lá) não estariam mortos agora em outras regiões do mundo, né?

Quero justiça. Não consigo aceitar a ideia de “primeiro pare o que tá acontecendo na Ucrânia e depois vemos a responsa dos EUA e OTAN”.

Quero que pare na Ucrânia agora. Quero que pare em outros lugares agora. Quero decisões coerentes e respeitosas. Quero cuidado com todo ser humano inocente que morre hoje, não importa onde.

Aliás, tenho medo que, se não endereçamos as outras guerras agora, vai ficar por isso mesmo. O mundo todo vai resolver a Ucrânia e, o resto, que se foda.

RESULTADO NA EXPRESSÃO: Injusto demais. Isso dá raiva. Pois as guerras existem faz tanto tempo, mas só vejo uma comoção em massa, agora. Não tem guerra grande ou pequena. Tem morte. E ponto. Quero saber de ações concretas para resolver todas as outras.

Logicamente, isso parece relativizar e tirar o foco da Ucrânia, diante de alguém que está voltado com 100% dos olhares para o cessar da agressão no leste europeu.
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  1. Vocês são um bando de hipócritas. Protestam contra a Rússia, mas se lixam para as guerras silenciosas no Brasil.

Querido brasileiro, me incomodo e fico com raiva em ver você colocando bandeirinha no Twitter e fazendo post contra a Rússia, sem mover uma palha para ajudar os indígenas que são assassinados. Sem se sensibilizar e lutar para acabar a matança do povo negro, que morre por ser negro. Que olhar seletivo é esse?

Tá. Eu falo de um jeito duro, mas eu gostaria de mais cuidado com as causas próximas da gente, que acontecem no quintal de casa. Gostaria de mais respeito e apoio a grupos de pessoas que precisam de nosso apoio, mas não conseguimos ter uma mobilização social a ponto de virar a chave aqui no país. De mudar a política. De reforçar leis de proteção. De resolver a questão.

Isso não significa que não me comovo com o que rola na Ucrânia. Também repudio a guerra. Mas gostaria de mais energia sendo colocada aqui também, e não de um olhar que acho seletivo.

Que bom seria se no Brasil os indígenas fossem respeitados. Negros andassem sem medo de polícia. Pessoas trama fossem vistas como pessoas. Mulheres não fossem assassinadas por serem mulheres, quando um homem não pode estar mais com ela.

É pedir muito, poxa? Quero humanidade. Respeito à vida. Se a gente consegue respeitar a vida do outro, já daríamos um passo grande.

RESULTADO: Alguns brigam por não querermos ser rotulados como incoerentes, outros brigam por esperarem mais coerência.


Perguntas chatinhas e provocativas:

A. Com qual destas vozes você se identifica mais?

B. Qual destas vozes te dá mais dor de barriga em ouvir? E o que descuida para você, na expressão do outro?

Eu poderia trazer outras várias vozes mais, mas resolvi me ater a três que tenho percebido. E, claro, o que escrevi é um breve recorte apenas. Não dá conta de tudo que vive para cada pessoa.

É um breve exercício de tentar escutar para além do que a gente grita. Para além da briga. Tentar escutar de onde parte essa comoção individual que culmina em nossa expressão.

Aliás, gosto de brincar com estas vozes, pois elas transcendem a opinião. Elas falam sobre como vivemos uma situação e o impacto disso em nossa experiência pessoal. O que isso reflete sobre nossos anseios para nós, para os outros, para o mundo. Como essa situação toda descuida de nossas necessidades, daquilo que é importante pra nós.

Quando entramos na disputa pela narrativa do que funciona ou não, a tendência é a gente querer subjugar o outro. Como recorrência, o desumanizamos, pois o cristalizamos em sua opinião e ele se torna simplesmente o avatar da mesma. Destruir o outro, pra destruir sua opinião, para manter a nossa certeza diante do que precisa ser feito.

Qualquer semelhança com a guerra, não é mera coincidência. Felizmente, ao menos, nessa disputa por narrativas e troca de farpas pela internet, não há uma morte a cada disparo.

Ao mesmo tempo, infelizmente, a cada disparo em que a possibilidade de escuta e troca se esvai, se dissolve o campo entre nós onde poderia haver uma mais sadia (ou menos danosa) discussão.

Infelizmente, também, essas farpas de internet começam a ter mais e mais reflexos em nossas relações pessoais. Não obstante, a gente já começa a ver mais agressão física por opiniões diferentes. Principalmente quando o tema é política. Não se limitando, certamente, a isso.

Qualquer semelhança com a guerra, logicamente em proporções infinitamente menores, não é mera coincidência.

Além disso tudo, tenho tentado propor que nos escutemos mais em nossas experiências pessoais. Nos impactos disso tudo em nós. Na medida que cada um deseja se abrir para fazê-lo, logicamente. Quem sou eu pra cagar regra sobre o que você faz ou não com sua vida.

Entretanto, só posso falar do que me é precioso diante de tudo que estudo e busco. Do caminho que tenho trilhado e construído.

Nos escutarmos no que nos é importante enquanto indivíduos, para além dos papéis que assumimos com recorrência (citei no começo alguns papéis) pode nos ajudar a criar espaço abaixo da superfície onde reina a divergência.

O propósito de escutar? Escutar. E ser escutado. Reconhecer o outro. Ser reconhecido.

E depois?

O depois a gente descobre quando genuinamente pararmos para nos escutar. Qualquer spoiler que eu der não será suficiente pra expressar o que você pode vivenciar, ou não, ao estar numa troca para além das farpas.

Eu só lhes conto isso porque 99% do Sérgio não tem esperança de um mundo onde a gente aprenda a se escutar. Onde a gente tenha, em larga escala, mais respeito à existência de outras pessoas. Justiça social de fato. Alimento, saúde, moradia. Condições básicas de existência, e não ‘sub existência’.

Porém, esses 1% que ainda sobra, é o combustível para continuar seguindo com o que faço. Com seriedade. Sem achar que o mundo é fofo e cor de rosa, tentando dialogar com a realidade dura, cruel e complexa, sem perder de vista a UTOPIA. Um passinho de cada vez. Trazendo junto os lutos necessários.

Aliás, eu não sou nada relevante pra mudar suas opiniões. Sou só mais um alguém, ou ninguém, tentando contar outros mundos. Afinal, o que é viver em sociedade, senão uma grande contação de histórias que já perdura por alguns milhares de anos?

Sergio Luciano
Um mineiro que gosta de conversar, aprender com o cotidiano e escrever. Investiga psicologia junguiana, comunicação não violenta, poder, privilégio, democracia profunda, dentre outros temas, para tentar entender um pouco mais esse negócio de relacionar-se com o diferente.
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