Transformação social

Caro progressista privilegiado, pare de brigar e aprenda a dialogar

– Tempo de leitura: 5 minutos
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Escrevo este texto com frio na barriga, pois nem tudo que é importante ser dito será gostoso de ser digerido. E criticar a vertente da qual comungamos é um exercício árduo, bem sei.

E, depois de muito tempo estudando psicologia, CNV, democracia profunda, mediação de conflitos, e olhando pra sociedade e refletindo a partir do que estudo, resolvi escrever.

Vem refletir, quem sabe passar raiva, junto com a gente! Comenta aí e vamos papear.


Você se considera progressista? Percebe-se com privilégios e tenta contribuir para uma sociedade mais justa e equânime? Então este texto é pra você.

E se você não se reconhece como progressista, mas tem curiosidade sobre o que tenho pra dizer, seja bem-vindo também. 

Disclêimer: risco de alto de desconforto e incômodo.

Disclêimer 2: não trago Verdades, afinal, seria muita prepotência eu reivindicar a Verdade. Trago provocações. Faça o que quiser com elas.

Avisos dados… comecemos.

A gente vive numa sociedade desigual. Fato. Existem infinitos sinais desta desigualdade e presumo que, ao se identificar como progressista, você já esteja careca de saber do que eu estou falando. Inclusive, talvez vocifere contra outros que tentem desacreditar essa visão.

Então, sigamos para a ideia de privilégios. Trago aqui uma definição para seguirmos a conversa:

Privilégios são benefícios, diretos e indiretos, que alguém recebe passivamente pelo fato de ter um conjunto de características (hereditárias ou não) que são aderentes às premissas (visíveis e invisíveis) de um sistema social.

Vamos destrinchar dois aspectos fundamentais dessa definição:

1. Benefícios diretos e indiretos significa que em alguns casos podemos para perceber claramente que são oriundo de uma característica: não ser perseguido no shopping, por ser branco. Outros, carece de uma compreensão cognitiva maior (vulgo, estudar e analisar contextos), como o fato de ter quase nenhuma startup de pessoas negras em meio ao ecossistema de startups.

2. Hereditária ou não, significa que você nasce branco ou negro, e não tem controle sobre. Porém, escolaridade, classe social, grupos que frequenta, vão se alterando e sobrepondo ao longo do tempo.

3. Que recebe passivamente, significa que mesmo que você não queira, ou que você ache um absurdo, você vai receber estes benefícios, pelo simples fato de ser quem é, por fazer parte de um sistema que transcende as individualidades.

Imagino que diferentes pessoas que lerem este texto vão se perceber em diferentes pontos do que poderíamos imaginar como uma escala de privilégios. Quanto mais características aderentes ao que o sistema “mais valoriza”, mais privilegiado pode-se considerar.

Disclêimer 3: claro que essa classificação e compressão do que se é privilégio ou não, é subjetiva e passível de crítica, de contestação. E minha ideia, de novo, aos desavisados, não é definir verdades, mas sim trazer uma chave de leitura para a complexidade do viver em sociedade.

Agora, vamos aos puxões de orelha. Ou, convites à responsabilidade.

Ao se perceber com uma série de privilégios e ver um monte de mazelas no sociedade e a situação de tantas pessoas que se ferram diante do sistema em que vivemos, das quais seus privilégios te blindam, pode ser que uma revolta comece a ser gestada dentro de você. Às vezes, uma sensação de culpa também. Culpa por saber que recebe benefícios, e outros se ferram, mas parecer não conseguir fazer nada pra mudar.

Indignação, revolta, desconforto, e tantos outros sentimentos, começam a ser transmutados em vontade de agir, seja como for. Ainda que pareça um problema insolúvel. Tentativas de fazer o que está ao alcance. Como usar o meu privilégio a serviço das causas sociais, da redução de desigualdades, da busca por equidade?

E onde esta vontade de mudança vai esbarrar?

Nas pessoas ao nosso redor. Redor este que, hoje, é quase infinito. Afinal, a internet expandiu as fronteiras do relacionar-se para qualquer mídia social onde duas opiniões podem se encontrar.

Aí, cara amiguinha e caro amiguinho progressista privilegiado, começa a treta.

Tem você e sua luta por transformação. Seja na causa feminina, seja na causa da negritude, seja na causa de LGBT, seja qual causa for. Sua ânsia por se tornar aliado e construir uma sociedade mais equânime. Sabendo que seus privilégios te blindam das dores que pessoas desses grupos vivam e sintam na pele, literalmente.

E quando tu vê aquela pessoa que está falando algo que destoa da luta por estas causas, o que tu faz? Começa a ostracizar esse fulaninho com opinião diferente e que fala meia dúzia de besteiras, na esperança de que ele seja silenciado e aprenda pela dor. Ou querendo convencê-lo no grito. Ou as vezes quer da ruma lição de moral mesmo.

Disclêimer 4: se você não faz isso, o puxão de orelha não é pra você, relaxa.

Resultado? Você briga com o fulaninho, ele te manda pra aquele lugar. Você manda ele pra aquele lugar ao quadrado. A polarização se acirra. Você acha que tá certo e colocou ele no lugar dele. Ele acha que te colocou no seu lugar.

E achismos aqui… achismos ali…

Quem tá sofrendo na pele, continua se fodendo.

A causa, suspeito que fica em segundo plano. O que tá em foco, é VOCÊ. Você quer ganhar aquela breve disputa. E esquece-se da complexidade do viver em sociedade.

Aliás, o que é ganhar? O que é perder? Em curto, médio e longo prazo?

É mais que normal e compreensível que uma pessoa que está em situação de vulnerabilidade em algum aspecto, por conta de uma estrutura social que a desqualifica ou leve às margens da sociedade, literalmente, seja reativa e combativa quando perceba no discurso de outros o espelhamento desta marginalização, aquilo que chega como agressão.

Delas, não espero que façam diferente. Ainda que eu saiba que o podem, se pagarem o preço necessário para estar em posição de diálogo com quem reflete a figura do inimigo.

Mas você, meu bem, que tem privilégios nas costas, se quer mesmo se aliar às lutas e colocar-se a serviço da construção de uma sociedade equânime, precisa aprender que seu privilégio pode estar a serviço da construção de pontes.

Não gosta de ouvir discurso X ou Y de quem pensa diferente? Aprende a lidar com o desconforto, e segue buscando diálogo. Segue tentando oferecer escuta e compreensão, para quem pensa diferente.

Deixa de lado a vontade de ganhar o argumento, e foque na construção da relação. Foque na construção de pontes, ainda que isso não signifique você dar uma aula de moralismos para o outro. Interesse-se genuinamente por aquilo que dele vem.

– Mas Sérgio, não tenho sangue de barata!

Sei, eu sei. Mas você que escolheu contribuir com a causa, não? Num mundo polarizado, precisamos de construtores de pontes se um dia queremos caminhar rumo a um equilíbrio dinâmico e saudável no campo do debate público. Você gritar e brigar, com o privilégio que tem, só aumenta a polarização.

Desenvolva-se. Faça trabalho interno. Faça o dever de casa. Faça terapia, se puder. E siga tentando dialogar.

– Mas Sérgio, tem gente que não dá pra conversar!

Claro! Cada um tem seus limites. Mas será que você tá sendo intolerante só com esses que representam o extremo do descuido com o bem-estar? Ou você tá jogando todo mundo no mesmo pacote e gritando a torto e a direito?

Discernimento. Tão fundamental.

– Mas se eu escuto, e não retruco, ele vai achar que concordo.

Retrucar tá funcionando? Se não, talvez possa fazer algo diferente. Esclareça as coisas: – Olha, eu não concordo com sua opinião e você bem sabe, ao mesmo tempo quero genuinamente escutar mais você e compreender de que lugar você parte para expressar o que expressa.

Mas, se não for genuíno, é só manipulação mesmo. E fazer isso de forma genuína é desafiador. Haja trabalho interno pra tentar acolher os próprios afetos, e manter a conexão.

Se você quer mesmo contribuir para uma sociedade mais plural e colocar seu privilégio a serviço, quero mesmo que você fique desconfortável e reflexivo. Que perceba o desafio que é sustentar o diálogo com o diferente. E veja a importância de ser um aliado estratégico, e não apenas um apontador de dedos.

E se acha que nada disso aqui é pra você, tudo viagem, vida que segue. Enlute que perdeu alguns minutos da sua vida. E segue fazendo o que lhe é conveniente.

Disclêimer 5: ser combativo também é necessário. Porém, entenda do que isso quer cuidar, ao invés de se achar o salvador só porque tá gritando mais alto que o amiguinho e lacrando na internet. Quem sabe outras estratégias melhor cuidem da causa.

Estratégia. Escuta. Empatia.

Não é sobre ser bonzinho ou permissivo. É sobre lutar, também com a cabeça, e não só com o coração.

E se você tem privilégio… faça-o valer.

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Sergio Luciano

Sergio Luciano

Sou um dos fundadores da Colibri. Intrigado pela complexidade das relações de poder e privilégio numa sociedade, tenho me aprofundado nesse tema pelo olhar Processwork, uma abordagem terapêutica derivada da psicologia junguiana voltada para mediação de conflitos, facilitação de grupos e autoconhecimento. Também investigo e compartilho sobre comunicação não-violenta e atendo organizações e pessoas físicas no Brasil e no exterior.
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