Transformando a sociedade por meio das organizações

Tempo de leitura: 5 minutos

Tradução de um artigo originalmente escrito por Dian Killian e publicado em seu site Work Collaboratively.

Quando me tornei uma treinadora de Comunicação Não Violenta (CNV), estava especialmente motivada para trabalhar com organizações sem fins lucrativos e organizações de mudança social. Eu tinha visto como as causas progressistas – com objetivos e intenções admiráveis – lutavam para ser eficazes e, consequentemente, atingir seus objetivos. 

Muitos dos desafios estavam relacionados a conflitos não resolvidos. Na melhor das hipóteses, esses conflitos eram uma distração e um dreno de recursos; na pior delas, levavam a brigas internas e ao colapso dessas organizações (ou no mínimo dos seus projetos). Eu achava que meu jeito de fazer mudança social, por meio da partilha da CNV, era ajudar o próprio trabalho de mudança social a se tornar “melhor” (com conexão, clareza e harmonia) e, assim, ser mais efetivo.

Desde então, meu pensamento evoluiu ainda mais. Eu continuo trabalhando e apoiando organizações sem fins lucrativos e ONGs—de pequenas organizações até o Programa de Desenvolvimento da ONU e, mais recentemente, fundações como a Camphill e sindicatos trabalhistas como a International Alliance of Theatrical Stage Employees (IATSE) [Aliança Internacional de Funcionários de Palco Teatral]. Ao mesmo tempo, me apaixonei por compartilhar CNV em empresas e corporações com fins lucrativos. Às vezes, acho engraçado ter começado no que pode parecer um lugar tão diferente; no entanto, para mim, essa mudança é mais uma expressão do meu compromisso com a mudança social.

Na verdade, essa se tornou uma das formas mais convincentes e significativas de mudança social que consigo imaginar. No mundo inteiro, a cultura e as práticas corporativas se tornaram a norma e criou-se a expectativa de que todos os outros tipos de organizações sigam esse modelo. Como acadêmica, por exemplo, vi como se esperava cada vez mais que faculdades e universidades seguissem modelos corporativos; vejo isso no setor de saúde nos EUA bem como em organizações sem fins lucrativos. Embora haja muito que pode ser aprendido e emulado da cultura corporativa, também (em geral), em minha opinião, reflete muito das estruturas de poder hierárquico que não estão nos servindo tão bem no mundo.

Minha esperança é que, se eu conseguir introduzir novas maneiras de interagir com pessoas no nível corporativo, essas novas maneiras de pensar e agir – e de estruturar organizações – acabarão por se propagar para outras partes da sociedade. E levar a CNV para esse ambiente pode fazer uma diferença real, inclusive em outras áreas de vida dessas pessoas, como em casa e com seus filhos. Embora as pessoas possam não ter tempo ou dinheiro para se comprometer com um estudo extenso da CNV por conta própria, muitas organizações possuem esses recursos (especialmente se estiverem comprometidas a fazer mudanças significativas na forma como sua empresa opera).

Vejo trabalhar com grandes empresas e organizações – que geralmente têm equipes de 30 a 60 ou mais membros que aprendem CNV simultaneamente – como uma maneira de aumentar drasticamente a aprendizagem e a prática da CNV. Ao aprender CNV com sua equipe de trabalho, as pessoas também se beneficiaram do fato de fazer parte de uma comunidade de aprendizes. Quando 20 a 30 pessoas estão aprendendo juntas (e às vezes várias equipes desse tamanho ao mesmo tempo), e quando isso se torna a norma esperada, a velocidade e a profundidade da aprendizagem podem ser impressionantes! 

Por exemplo, eu trabalhei com várias empresas que assumiram o compromisso para, durante seis meses, todo seu quadro de funcionários desenvolver e praticar habilidades e raciocínio de CNV. Isso incluía treinamento de imersão, treinamento de acompanhamento e coaching individual e em grupo. As mudanças que vejo como resultado desses programas são impressionantes e inspiradoras. Frequentemente, ouço participantes comentarem sobre como os aprendizados no trabalho impactaram uma conversa que tiveram com sua esposa ou marido, com seus filhos e dentro de associações onde atuam como voluntários.

Vejo como os conflitos são resolvidos internamente e como as pessoas começam a se colocar mais, a se envolver em conversas autênticas, atravessando diferenças de poder. Minha esperança é que, quando as pessoas começarem a ver o valor da colaboração (em vez de usar punição ou recompensa, ou poder-sobre), elas compartilharão essas experiências e habilidades com outras pessoas, criando um efeito cascata. Ao ver como a colaboração funciona bem para elas no trabalho e em casa, talvez comecem a se perguntar: Como seria quando aplicado à educação? Ao nossos sistemas de justiça criminal? A como nos engajamos politicamente?

Para dar só um exemplo, a empresa Merck ficou tão impressionada com um programa de treinamento introdutório em Comunicação Colaborativa que facilitei para eles, que conduziram um estudo sobre o impacto (clique para ler os resultados do estudo). Os resultados superaram todas as expectativas. Isso se multiplica quando diferentes equipes que trabalham juntas recorrentemente passam pelo treinamento enquanto grupo ou simultaneamente.

Certa vez, durante um treinamento, conheci um médico que ficou bravo quando soube que eu estava ajudando a indústria farmacêutica. Ele não gostava de como as empresas farmacêuticas estavam lucrando com o adoecimento das pessoas e como elas, em sua opinião, colocavam os lucros acima da saúde das pessoas. Suas palavras me fizeram lembrar que também tive alguns desses mesmos pensamentos sobre corporações em minha vida.

Como treinadora e ativista de CNV, entretanto, tive a oportunidade de olhar para as imagens de inimigo que eu mesma tinha sobre empresas e corporações. Toda empresa é composta por pessoas. Muitas dessas pessoas não necessariamente gostam do que essa empresa faz, como ela opera, ou como está estruturada. Muitas vezes, elas estão lutando sob essas mesmas estruturas e não conseguem ver como mudar esse “Golias”.

O gerente muitas vezes pensa que fui contratada apenas para ajudá-los a colaborarem e se comunicarem de forma mais efetiva. O que acabam descobrindo é que aprender CNV desafia toda uma gama de suposições e o “status quo” – até inclusive a maneira como seus departamentos estão estruturados e a forma como o feedback e as revisões anuais são feitos, como avanços são decididos e como decisões são tomadas. Frequentemente, as próprias pessoas são desafiadas a considerar como costumam usar seu poder e como suas ações impactam a dinâmica da equipe.

Dado o tamanho e o poder da América Corporativa, fazer tais mudanças pode parecer uma gota no oceano. (Já me dei autoempatia muitas vezes em relação a esse assunto!) No entanto, em última análise, se eu quero ver mudanças na sociedade, e que os seres humanos e outras formas de vida continuem vivos no planeta, tenho uma urgência enorme em compartilhar a CNV o máximo que puder no mundo corporativo. 

Felizmente, de fato vejo algumas mudanças acontecendo. Nos últimos vinte anos. “Inteligência emocional” se tornou uma palavra da moda; empatia e outras chamadas “soft skills” [competências sociais e interpessoais] (cruciais na minha opinião!) são cada vez mais valorizadas no trabalho; e agora há um movimento e consciência crescente sobre como estruturar empresas, em parte liderado por startups empreendedores e que está expandindo para dentro de empresas e estruturas maiores. 

Reinventando as organizações, um livro de Frederic Laloux, oferece vários exemplos. Estou ansiosa para o dia quando uma grande empresa ou organização – talvez a Google! Ou a Microsoft? – decide adotar integralmente os princípios e práticas da CNV na empresa toda. Para mim, esse seria um dos experimentos de mudança social mais emocionantes que se possa imaginar e seria um passo enorme em direção à criação de um mundo baseado na colaboração, no compartilhamento de poder e na valorização das necessidades de todos.

Enquanto isso, pare um momento e reflita: Como sua empresa ou organização seria diferente se a CNV fosse praticada pelos seus colegas e gerência? Como maior colaboração, confiança e uma comunicação mais conectada aumentariam a criatividade, eficiência e eficácia? Que estruturas você vê na América Corporativa que permeiam nossa cultura como um todo? Como a mudança dessas estruturas, práticas e crenças afetaria nossas vidas e o futuro de nosso planeta?

Tradução livre do artigo “Transforming Society through Organizations” escrito originalmente em inglês por Dian Killian.

Dian Killian, Ph.D. é consultora, coach e autora. Ela é apaixonada por comunicação efetiva, colaboração e liderança. É treinadora certificada pelo Center for Nonviolent Communication [Centro para a Comunicação Não Violenta] e fundadora da Work Collaboratively. Compartilha a Comunicação Colaborativa (assim ela se refere à Comunicação Não Violenta) com organizações, grupos e indivíduos nos EUA, na Europa e na Ásia.

 

Fonte: https://workcollaboratively.com/2020/08/13/nvc-at-work-transforming-society-by-transforming-organizations/

Tradução gentilmente oferecida pela Colibri. Ao copiar fragmentos do texto, pedimos para mencionar a fonte.

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Laura Claessens

Laura Claessens

Cofundadora da Colibri. Motivada pelo profundo desejo de cultivar relações mais saudáveis consigo mesma, com outros e com a Terra que lhe sustenta. Fascina-se pela linguagem e o uso consciente das palavras na (des)construção de significados e narrativas. Numa constante aprendizagem de acolher e integrar o “diferente”.
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