Quais são seus silêncios?

Tempo de leitura: 3 minutos

Vamos exercitar a imaginação.
Tô numa relação. Amorosa. Poliamorosa. De trabalho. Amizade. Familiar. Tanto faz. Escolhe aí.

É uma relação que, hoje, faz total sentido. Quero manter, vejo que cuida do meu bem-estar.

Aí rola aquele desconforto básico. Alguma coisa que aconteceu e não bateu legal. E falo…

eu: – Olha, eu percebi que quando tu falou isso e fez aquilo, foi foda. Vejo que esperava minha opinião e combinado serem respeitados.

pessoa: – Ah, relaxa. não tem nada a ver. nem tive essa intenção. Tu tá de neurose. deixa disso.

eu (pensando): – É Eu dou muito peso pras coisas. Tô de neurose. Nem é importante isso que se passou. Deixa pra lá.

eu: – É mesmo. Deixa pra lá. Você tá certo/a. Tô dando muito peso pra nada.

pessoa: – Isso ae. Tô aqui, viu. Tamo junto. Conta comigo.

Aí, dentro de mim, rola aquela aceitação né. Construída sobre uma quase invisível partícula de desconforto por não ter o reconhecimento do impacto daquela ação em mim.

E a vida segue. Passa o tempo.

eu: – Olha… não achei legal não. Essa situação, veja. Achava importante termos dialogado antes de decidir…

pessoa: – Ah, que isso. Você tá querendo controlar muito as coisas. Fiz pensando na gente (ou no negócio), pô.

eu (pensando): – Eu reclamo a toa, nem vi que a pessoa fez por boa vontade. Olha eu implicante.

eu: – Verdade. Você tá certo/a. Valeu pelo seu cuidado. Vou tentar ser menos implicante.

pessoa: – Ahaaam. Olha, eu já impliquei muito. Super te entendo. Demorei pra ser mais de boas, viu.

Mais um pouco de aceitação. Quero muito manter essa relação. Conexão é importante pra mim. Com essa pessoa (ou organização). Resiliência, né. E mais um pouco de desconforto e frustração se somando ao que já existia.

Segue a vida… e mais algumas experiências similares.

eu: – É… olha….

eu (pensando): – Deixa pra lá, nem vale a pena passar raiva não. Vou me adaptar, porque sei que ele/a é assim mesmo e eu posso aprender a lidar com a forma de ele/a ver as coisas.

eu: – Nada não. Deixa pra lá (cara de que tem várias coisas rolando aqui dentro).

pessoa: – Aaaah, tem nada mesmo? Sério?

eu: – Não. Tu perguntar já me dá um alívio.

pessoa: – Ufa! Mas sabe que tô disposto/a a conversar e mudar o que precisar, né?

eu: – Ahaam… sei! Gratidão, viu. Fico feliz de saber da sua abertura.

Segue lá eu, valorizando a conexão com esse ser. Com essa organização.

Conexão essa que parece cuidar do meu bem-estar, apesar de eu ter uma pulga atrás da orelha. Maaas, dá pra pagar o preço. É foda viver o desconforto do conflito. E tem o medo da ruptura. tem sociedade. Tem crenças. Jeeezuis. Deixa eu quieto aqui.

É assim mesmo. Aceitação né. Resiliência. De novo.
Segue a vida. Silêncios. Adaptações.

Poder. Do outro. Poder sobre mim.

Já não há espaço para o eu estar inteiro. Eu ser inteiro significa desconforto do outro. Desconforto do outro significa risco de perda.

Quem (pessoa, organização) quer alguém que reclama? Pessimista? Chato pra caralho? Fica quieto. Aprende a ser legal.

Ser legal = Silencie-se.

A angústia vem. A dor também.

As assimetrias de poder já estão escancaradas. É um sofrimento manter como está. Não consigo conversar.

Suporto. Tenho esperança. Um dia essa pessoa (ou organização) há de ver a dor dos impactos de suas ações e palavras. Pequenas para ela, tão intensas e grandes pra mim.

Suportei. O que podia.
Nos silêncios, o fim.

Alguns fins, silenciosos. Silêncios que nunca serão quebrados.
Outros fins, estrondosos. Trazendo essa tempestade de dor acumulada. Num golpe só.

Calma. Não culpe quem estava em silêncio.
Espera. Não tô culpando quem nada percebeu.

É uma reflexão sobre algumas conversas que rolaram num curso que facilitávamos ontem e hoje, eu e Laura.

Quando falávamos sobre necessidades sob a ótica da comunicação não violenta. Sobre a dificuldade de se acolher. De se oferecer empatia. De olhar pra dentro. Sobre escolhas. Sobre estratégias.

Silêncios.
Fantasiados de resiliência, parecem ser a melhor estratégia para preservar relações.

Um mar de tranquilidade na superfície.
Uma bomba relógio na sua profundidade.

Quais são seus silêncios?

PS: Texto alegórico. Traços de realidade.

Acho importante observar que cada história é uma história. Algumas delas são perpassadas por opressão das estruturas sociais que vivemos (falando de etnia, gênero, opção sexual, tipo físico, lugar onde se vive, etc), outras por crenças familiares e religiosas que podem cegar e anestesiar, outras por vivências duras em uma ou mais partes da vida…

Coloque essas camadas citadas para rechear o texto, se fizer sentido pra você.

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Sergio Luciano

Sergio Luciano

Sou um dos fundadores da Colibri. Intrigado pela complexidade das relações de poder e privilégio numa sociedade, tenho me aprofundado nesse tema pelo olhar Processwork, uma abordagem terapêutica derivada da psicologia junguiana voltada para mediação de conflitos, facilitação de grupos e autoconhecimento. Também investigo e compartilho sobre comunicação não-violenta e atendo organizações e pessoas físicas no Brasil e no exterior.
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