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CNV – Mudança de consciência, relações e sistemas

(Tempo de leitura: 7 minutos)

Tradução de um artigo originalmente escrito por Roxy Manning junto com Janey Skinner. As autoras abordam uma crítica frequente à Comunicação Não Violenta  que ela ignora ou minimiza questões de raça, classe e outras diferenças sociais. Partindo do trabalho inicial desenvolvido pelo seu fundador Marshall Rosenberg e analisando o uso dessa abordagem ao longo do tempo, exploram seu potencial de mudança social, ilustrado por exemplos reais.

O poder de mudança social da CNV: uma história

A Comunicação Não Violenta (CNV) foi desenvolvida, em parte, porque seu fundador, Marshall Rosenberg, foi inspirado pelo trabalho de Mahatma Gandhi, Dr. Martin Luther King e inúmeros outros que responderam pacificamente e, ao mesmo tempo, poderosamente a vastos desigualdades e abusos sistêmicos. Dr. Rosenberg testemunhou o poder transformador que um compromisso ativo e corajoso com a não-violência é capaz de trazer. Como Dr. King, ele também acreditava que a transformação duradoura não vem apenas da criação de mudanças externas, mas do trabalho em prol dessas mudanças a partir de um lugar que abraça a humanidade de todos.

À medida que os ensinamentos de Dr. Rosenberg sobre Comunicação Não Violenta se espalhavam, a CNV se afastou em muitos lugares da poderosa força de transformação social que ele almejava. Muitos que aprenderam esse trabalho faziam parte dos grupos sociais dominantes em seus tempos. Nos Estados Unidos, a CNV foi disseminada por meio de workshops, método esse que muitas vezes ressoava com um público branco, de classe média, que tinha tempo, educação e dinheiro para participar e que era atraído principalmente pelo convite à libertação pessoal inerente à consciência da CNV. As pessoas que não foram tão pessoalmente impactadas por desigualdades sociais tendiam a focar os aspectos de crescimento pessoal ou de transformação interna da CNV. Elas aplicavam os conceitos da CNV a questões relevantes para seus mundos, sem consciência de como suas perspectivas, moldadas pelas questões e ambientes que conheciam, representavam apenas uma pequena fração do poder da CNV. Como resultado, uma crítica frequente à CNV é que ela ignora ou minimiza questões de raça, classe e outras diferenças sociais. Esta é uma falha na maneira como a CNV tem sido aplicada e ensinada, não da abordagem propriamente dito.

À medida que a CNV começou a se espalhar em comunidades com menos privilégios, algumas das maneiras em que a prática da CNV havia se tornado limitada, pelo status relativamente privilegiado daqueles que a praticava, ficaram mais claras e até polêmicas nos círculos da CNV. Um exemplo é quando explorar “necessidades” na consciência da CNV. Na consciência da CNV, as necessidades são entendidas como qualidades vitais abstratas – como contribuição, respeito e compreensão – que todos os seres humanos buscam. Um princípio fundamental da CNV é que todas as ações humanas são tentativas de atender a necessidades. Todo mundo que se alinha com a consciência da CNV acredita nesse axioma fundamental. No entanto, as implicações desse axioma são totalmente diferentes quando aplicadas com ou sem uma lente social. Como as pessoas interpretam e se comportam em relação a esse axioma fundamental conforme a classificação social pode ser previsto pelos seus níveis de consciência em relação a diferenças sociais.

Alguns praticantes com um entendimento limitado das diferenças entre grupos acreditam que todo ser humano tem as mesmas necessidades e que todas as necessidades são iguais, e depois aplicam essa crença a todas as interações. É mais provável que esses praticantes insistam, por exemplo, quando lidar com um conflito na sala de aula, de que as necessidades de um aluno de cor e as de um professor branco são iguais e, portanto, devem ser tratadas com a mesma atenção e sem consideração de poder ou privilégio. É possível que eles argumentem que, por as necessidades de todos serem iguais, a pessoa que historicamente teve menos privilégios pode e deve manifestar-se em defesa de suas necessidades e que ela é igualmente responsável e capaz de atender às suas necessidades, independentemente de seu poder real para influenciar a situação. A CNV que opera dentro dessa estrutura ignora os efeitos de opressão sistêmica e de história pessoal. Não reconhece que o aluno talvez tenha uma dificuldade muito maior em confiar que suas necessidades são importantes para outros. O aluno pode estar arriscando muito mais ao se manifestar e defender suas necessidades. O aluno precisa lidar com o fato (um que para o professor talvez nem vem à mente) de que, quando as pessoas de seu grupo ousam se manifestar, muitas vezes são ignoradas, às vezes punidas e, em algumas situações, até assassinadas. A adesão a uma visão que foca apenas a igualdade de todas as pessoas e de todas as necessidades está condicionada ao praticante ter menos consciência crítica, em vez de ser uma limitação da própria CNV.

Criando espaço para equidade

Os praticantes de CNV com maior consciência crítica são capazes de usar todo o potencial da CNV. Quando a CNV argumenta que as necessidades de todos importam, praticantes com uma mentalidade intercultural mais avançada veem isso como um chamado para dar às pessoas as ferramentas e o apoio de que precisam para garantir que suas necessidades realmente sejam tratadas com cuidado. Esses praticantes estão cientes da diferença entre igualdade e equidade. Possivelmente eles oferecerão muito mais atenção e apoio a membros de um grupo para garantir que suas necessidades sejam vistas e atendidas, em comparação com outro grupo que tem mais privilégios estruturais, a fim de alcançar equidade para que todas as necessidades sejam tratadas com cuidado. Praticantes de CNV precisam estar cientes das iniquidades sistêmicas que continuam a persistir entre grupos, bem como abordar e assumir responsabilidade por esses desequilíbrios, se quiserem realmente levar para frente o trabalho que Dr. Rosenberg iniciou. De fato, pode-se causar dano ao focar uma igualdade simplista que ignora estruturas sistêmicas. Ter esse foco pode levar a considerar que um indivíduo é responsável pelas circunstâncias em que se encontra, sem levar em conta o fato que o acesso à influência sobre essas circunstâncias é completamente diferente dependendo do indivíduo. Uma crença de que empoderar pessoas a reconhecerem e lutarem por suas necessidades não atendidas é suficiente para superar desigualdades sociais, sem reconhecer as diferenças de poder social e político que os indivíduos possuem, corre o risco de transferir exclusivamente para o indivíduo a responsabilidade por ter ou não ter suas necessidades atendidas, e de eliminar a responsabilidade do sistema como um lugar de mudança.

Tragicamente, certos praticantes de CNV colocaram o foco em ‘fazer escolhas pessoais diferentes’ como a única abordagem para lidar com violência estrutural. Por exemplo, pode ser que sugerem que, se uma mulher está em um relacionamento em que seu companheiro atende às necessidades de “segurança” e “respeito” controlando o comportamento dela, ela tem a opção de sair se a estratégia de seu parceiro não funcionar para ela. Embora tecnicamente correto – todos nós temos a opção de sair – é um entendimento fundamentalmente falho e limitado do que a CNV oferece numa situação dessas. Ao se concentrar apenas no comportamento da mulher nessa situação, o praticante deixa de reconhecer uma infinidade de fatores que podem restringir a escolha da mulher em sair ou advogar por si mesma. Não está fora da CNV a responsabilização do companheiro pelo impacto de suas ações nessa mulher. Um praticante de CNV que está ciente de como as normas tradicionais de relacionamento restringiram a liberdade das mulheres pode pedir ao companheiro que acabe com o comportamento coercitivo ou apoiar a mulher a sair com a compreensão das barreiras que ela pode enfrentar. Um praticante de CNV sem essa consciência pode aplicar a estrutura que considera iguais as necessidades de ambos, sem reconhecer as diferenças de impacto e de acesso a poder, e assim, sem querer, reforçar aspectos negativos de normas tradicionais de relacionamento.

Praticantes que estão plenamente fundamentados num entendimento de como diferenças sociais tem se manifestado em sua sociedade podem usar melhor a CNV de uma maneira que maximize seu potencial de mudança. Podemos usar a CNV para empoderar o indivíduo e assim ajudá-lo a opor-se a injustiças e a arcar com os custos da oposição, da maneira que gerações de pessoas fundamentadas no trabalho de Mahatma Gandhi e Dr. King fizeram. Podemos usar a CNV para advogar que mais necessidades sejam atendidas para mais pessoas. Podemos usar nosso entendimento dos sistemas que causam injustiças para direcionar recursos para a mudança desses sistemas. Apenas empoderar indivíduos ou apenas confrontar sistemas é incompleto. Se ignorarmos o nível sistêmico, essencialmente permitimos que as necessidades de certos grupos continuem sistematicamente não atendidas. No entanto, não podemos esperar que os sistemas mudem para começar a empoderar indivíduos e comunidades, a fomentar as habilidades e a esperança necessárias para curar nosso mundo.

Uso da CNV no nível sistêmico: um exemplo

Os participantes de um retiro de CNV experimentaram o poder de se concentrar tanto no nível interpessoal quanto no nível sistêmico. Um participante, um jovem afro-americano que veio à Costa Oeste dos EUA pela primeira vez para participar do retiro, entrou em uma mercearia num bairro rico do Norte da Califórnia junto com outro participante masculino de cor. Ao solicitar um saque de dinheiro à caixa, ele foi informado que teria que voltar em 15 minutos porque as máquinas não estavam funcionando. Quando ele voltou ao caixa, ele foi recebido por um policial – a funcionária havia ligado para a polícia porque acreditava que ele havia roubado a loja anteriormente, convicção baseada apenas na cor de sua pele. O policial solicitou o documento de identidade do participante.

Alguém ouvindo essa história sem uma lente de justiça social possivelmente acredita que este é um simples caso de erro de identificação. O participante afro-americano poderia simplesmente dar seu documente de identidade e o erro de identificação seria resolvido. Ele poderia retornar ao retiro de CNV e receber empatia de CNV pela dor e raiva ativadas nele por esse evento, abordando seu impacto individual. Ao analisar isso através de uma lente de justiça social, havia muitas preocupações com essa estratégia, dada a história de homens afro-americanos sendo acusados e incapazes de limpar seus nomes, apesar de ter provas abundantes de sua inocência. Além disso, simplesmente abordar o impacto desse evento específico por meio de empatia ou apoio individual não faria nada para impedir que uma experiência semelhante acontecesse com o próximo afro-americano que entra naquela loja.

Em vez disso, os homens dessa história e os participantes do retiro usaram todo o poder da CNV para apoiar tanto o indivíduo quanto a necessidade de mudança sistêmica. Em vez de dar seu documento de identidade, os dois jovens se apoiaram mutuamente ao expressar sua tristeza e dor pelo homem afro-americano ter sido acusado de roubo simplesmente por causa de sua raça. Eles simpatizaram com o policial que tentava fazer seu trabalho, enquanto continuavam a insistir em serem tratados com dignidade e respeito. Finalmente, diante de sua insistência não violenta em ter seus direitos respeitados, o policial conseguiu reconhecer as poucas circunstâncias que levaram a funcionária a chamá-lo e permitiu que os homens saíssem sem ter que mostrar seus documentos de identidade. Eles voltaram ao retiro e, em seguida, realmente alavancaram o poder da Comunicação Não Violenta. Depois de receber apoio empático da comunidade, o jovem afro-americano expressou sua surpresa pelo fato de que, pela primeira vez em sua vida, um encontro com a polícia não resultou em graves consequências para ele e de que outros membros da comunidade conseguiram compreender e apoiá-lo. Todos então se uniram para identificar as necessidades não atendidas tanto para o indivíduo quanto para a comunidade. Eles decidiram tomar ação não violenta para protestar contra o que havia acontecido e apelar à loja e ao departamento local da polícia a mudarem suas políticas. Mais de 30 participantes foram à loja e esperaram enquanto os dois jovens, um facilitador do retiro e um membro da comunidade conversavam com o gerente. Eles conseguiram expressar o impacto de terem vivenciado essa situação e obtiveram o compromisso do gerente da loja de levar a questão para a gestão corporativa, juntamente com os pedidos de educação e mudança. Ao se concentrar em apoiar o indivíduo em uma situação desafiadora, depois identificar e desafiar os padrões de discriminação que levaram a esse evento, o homem afro-americano e os participantes do retiro eram capazes de usar a CNV e uma lente crítica de consciência para advogar por mudanças que poderiam impactar muitos.

Tradução livre do artigo “NVC – Changing Consciousness, Relationships & Systems” escrito originalmente em inglês por Roxy Manning junto com Janey Skinner.

A experiência de vida de Roxy como imigrante afro-caribenha, combinada com sua formação acadêmica e trabalho profissional como psicóloga clínica licenciada e Treinadora Certificada de CNV cultivou nela uma profunda paixão pelo trabalho que apoia a mudança social, seja com indivíduos, casais ou instituições.

Fonte: http://www.roxannemanning.com/2018/02/20/nvc-changing-consciousness-relationships-systems/

Tradução gentilmente oferecida pela Colibri. Ao copiar fragmentos do texto, pedimos para mencionar a fonte.

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